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Começa o debate sobre
a participação das mulheres na carreira científica
"Talento não se substitui, ele nasce
onde ele nasce. Não escolhe sexo",
Mildred Dresselhaus
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq/MCT) vem sendo palco de discussão e reflexão
sobre a participação das mulheres no campo das ciências
e carreiras acadêmicas no Brasil, na América Latina
e no Reino Unido. A proposta do Encontro Brasil – Reino Unido sobre
Mulheres e Ciências, que teve sua abertura hoje e prosseguirá
até amanhã, é resultado das reflexões
desenvolvidas ao longo do Programa Mulher e Ciência do qual
o CNPq é integrante em diversos cenários de debates,
em especial, as dos encontros “Pensando Gênero e Ciência”.
O encontro, organizado pelo British Council Brasil em parceria
com o CNPq e a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres
(SPM), contou em sua abertura com a participação da
ministra Nilcéa Freire, da SPM, com o presidente do CNPq,
Carlos Alberto Aragão, com a vice-presidente, Wrana Panizzi,
e com o Secretário de Desenvolvimento Tecnológico
e Inovação do MCT, Ronaldo Mota.
Durante a abertura do encontro, a ministra Nilcéa Freire
afirmou ser de extrema importância analisar a historicidade
dos indicadores científicos que nos mostram os desafios que
as mulheres enfrentam ao se aventurar no mundo das ciências.
Disse ainda que é indispensável a realização
de diagnósticos atuais e apropriados para desenvolver ações
que reparem as desigualdades ainda existentes. “A disponibilidade
de indicadores de ciência e tecnologia separados por sexo
em todas as dimensões em que se desenvolve atividade cientifica
é um quesito básico para conhecer o estado da ciência
e a detecção de padrões de estratificação”,
afirmou a ministra.
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A ministra disse serem fundamentais encontros como esse, para discutir
os dilemas que a mulher cientista contemporânea enfrenta ao
ingressar no mundo dominado pelo ethos masculino. No encontro foi
considerado que garantir a participação equitativa
entre homens e mulheres na ciência é essencial, “não
apenas por uma questão de justiça, mas também
porque vivemos em uma sociedade moderna, na qual a inovação
adquiriu uma importância primordial. Assim, não faz
sentido aproveitar tão mal metade da fonte de ideias potencialmente
revolucionárias”.
“A visão de mundo das mulheres é diferente da dos
homens, o que faz com que elas façam perguntas cientificas
diferentes, e tenham opinião distinta. Nenhum campo deveria
estar fora da perspectiva da mulher, pois assim estaremos desperdiçando
50% da capacidade intelectual do nosso país”, afirmou Nilcéa.
Preocupada com o cenário inquietante das mulheres na Ciência,
a vice-presidente do CNPq, Wrana Panizzi, afirmou que a proporção
de bolsistas mulheres cresce nas diferentes modalidades, mas diminui
à medida que cresce o nível da bolsa. Isso, segundo
ela, demonstra que uma parcela das mulheres que passam pelos primeiros
estágios de capacitação e treinamento para
as atividades cientificas se perde ao longo desse caminho ou simplesmente
não ganha o reconhecimento dos pares por meio da concessão
de suas bolsas.
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Os dados revelam que, quanto maior a hierarquia acadêmica
ou cientifica, menor é a participação feminina.
Segundo Panizzi, as estatísticas apontam que, se por um lado
as mulheres têm participado cada vez mais das atividades de
C&T no Brasil, por outro ainda não avançam tanto
em cargos e posições de destaque e reconhecimento,
com raras exceções. “Nós vemos que o número
de mulheres é mais alto na base do que no topo, e essa situação
de desigualdade no mundo acadêmico só irá deixar
de existir se forem tomadas medidas de incentivo à participação
das mulheres na ciência, principalmente nas engenharias, computação,
matemática, física e filosofia, que é composto
em sua maioria por homens”, disse Panizzi.
O presidente do CNPq, Carlos Alberto Aragão, que tomou posse
semana passada, afirmou ser uma grande honra poder iniciar sua agenda
com um programa com um enorme peso e potencial de transformação.
“Precisamos superar os gargalos e estimular a discussão e
a realização de pesquisas nessa área. Impulsionar
e consolidar políticas públicas para a maior inserção
e participação das mulheres em todos os campos da
ciência e em todas as instancias é fundamental”, afirmou
o presidente.
Entretanto os resultados não são apenas negativos.
Segundo dados do CNPq, as mulheres são maioria no campo das
ciências sociais e humanidades em geral e têm uma participação
igualitária ou levemente maior nas ciências da saúde.
Durante a abertura do evento, a especialista britânica Teresa
Rees, representante do Reino Unido, destacou que um dos fatores
relevantes na hora de explicar as dificuldades das mulheres no desenvolvimento
de carreiras cientificas é o condicionamento cultural proveniente
de uma socialização prematura ou a situação
particular da mulher em relação à maternidade.
Porque, na maioria dos casos, diz-se que a maternidade ocorre concomitantemente
à etapa de formação de doutorado.
Outro ponto relevante que Tereza Rees comentou foi que ainda persistem
preconceitos como o de que a mulher não teria a mesma capacidade
e competência, que pelo fato de ser casada e ter filhos estaria
impossibilitada de viajar para participar de congressos, de que
não poderia exercer cargos de chefia e direção,
entre outros.
Segundo ela, outra grande dificuldade enfrentada pelas pesquisadoras
é o fato de que os comitês de julgamento de projetos
de pesquisa, na maioria, são compostos por homens. “No mundo
todo, a maioria dos membros das academias de ciência e dos
órgãos e institutos responsáveis por conceder
bolsas e verbas de pesquisas são homens. A exclusão
das mulheres pode estar sendo provocada por práticas discriminatórias
que, mesmo involuntárias e inconscientes, têm afetado
e muito a participação da mulher no sistema de C&T,
assim como na natureza do conhecimento que se produz”, afirmou Rees.
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Além de ter dado sua contribuição na abertura
do evento, Teresa Rees irá dar uma palestra nesta terça
sobre “A Trajetória das Políticas Públicas
de Gênero nas Ciências: Sucessos e Desafios na União
Europeia". O encontro contará também com a participação
de Alice Abreu, diretora do Regional Office for Latin America
and the Caribbean International Council for Science, que irá
abordar o tema “Mulheres e Ciências: panorama da realidade
Brasileira”.
O evento prossegue até terça discutindo temas como a
articulação entre pesquisadores com vistas à
formação de uma rede de pesquisa; ao incentivo a consolidação
de políticas públicas para a maior inserção
e participação das mulheres em todos os campos da ciência
no Brasil e na América Latina; à troca de experiências
e a cooperação científica entre o Brasil, a América
Latina e o Reino Unido.
Assessoria de Comunicação Social do CNPq
Fotos: Carlos Cruz
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