Pioneiras da Ciência no Brasil - 3ª Edição

Em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), o CNPq lança hoje a terceira edição das Pioneiras da Ciência no Brasil. Conforme os parâmetros já divulgados, foram selecionadas cientistas de diversas áreas do conhecimento que tiveram relevante atuação como pesquisadoras e contribuíram para a formação dos campos e linhagens científicas.

Agradecemos a contribuição de vários/as pesquisadores/as e instituições que sugeriram nomes e colaboraram na produção dos verbetes aqui publicados. Mais uma vez, destacamos que o Programa Mulher e Ciência considera fundamental criar espaços de visibilidade para as mulheres e as suas contribuições para as diferentes áreas do conhecimento.

Somente demos início à divulgação da história das pesquisadoras e cientistas brasileiras e caso você entenda que ainda há outras esquecidas ou, então, outras ações que possam contribuir para o incentivo e divulgação das mulheres nas ciências, escreva e envie para a equipe do Programa Mulher e Ciência pelo endereço: programamulhereciencia@cnpq.br  

Aída Hassón-Voloch (1922-2007)

  • Carioca do bairro da Tijuca, nascida em 1922, e proveniente de uma família de imigrantes judeus socialmente bem posicionada, Aída Hassón-Voloch realizou o secundário em uma escola privada inglesa, o colégio Aldridge, onde, sob a influência do professor de química, passou a se interessar por esse campo de conhecimento. Estimulada pelo pai a prosseguir sua educação em nível superior, ela ingressou na  Escola Nacional de Química (ENQ) em 1941, onde se formou em 1944,  com a aspiração de se tornar química industrial.

    As restritas oportunidades de trabalho para os químicos industriais, na época, a levariam, após a formatura, a realizar estágios não remunerados. Primeiro, no laboratório de Produção Mineral (LPM), pertencente ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), chefiado por  Fritz Feigl (1891-1971), químico suíço que emigrou para o Brasil em 1940, e é reconhecido como um dos expoentes da química analítica do século XX. Em seguida, conseguiu estágio no Instituto Nacional de Tecnologia (INT), na Divisão de Química Orgânica, onde permaneceu por um curto período após se desinteressar pelo trabalho que ali era executado.

    As expectativas profissionais da jovem química seriam modificadas e seu destino profissional alterado a partir de um encontro fortuito, em 1947, com Carlos Chagas Filho em um navio em que viajavam de regresso da Europa para o Brasil. Ele era conhecido de seu pai, e a convidou para um estágio no Instituto de Biofísica, recém-criado na Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    O que seria um estágio temporário sem remuneração, se transformou em um projeto profissional de toda a vida. Ali a jovem química se transformou em pesquisadora e professora de biofísica, realizando uma carreira científica bem-sucedida.

    Inicialmente, ela trabalhou como auxiliar de pesquisa de Tito Leme Lopes, que preparava sua tese para o concurso à cátedra de física aplicada à farmácia, da Faculdade de Farmácia. Em seguida, se integrou ao laboratório de eletroforese, dirigido por José Moura Gonçalves, bioquímico mineiro que trabalhara com José Baeta Viana na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, e que retornara de viagem de estudos aos Estados Unidos no final de 1947. Com ele Aída aprendeu a técnica de eletroforese – sendo Moura Gonçalves reconhecido como seu introdutor no Brasil -, e escreveu o primeiro trabalho de cromatografia em papel em 1950.

    Em 1952, ela partiu para um período de estudos na Europa. Primeiro, frequentou por um curto período, com bolsa do CNPq, o laboratório de bioquímica de Roger Acher da Faculdade de Ciências da Universidade de Paris. Em seguida, se dirigiu ao Departamento de Bioquímica da Universidade de Cambridge, onde, com bolsa do  British Council,permaneceu durante um ano junto à equipe de Fred Sanger, laureado com o Prêmio Nobel de Química em duas ocasiões: em 1958, por seu trabalho sobre a estrutura das proteínas, especialmente a insulina, e em 1980, quando dividiu a premiação com Paul Berg e Walter Gilbert, pela contribuição à determinação das seqüências de base do ácido nucléico.

    Ao retornar ao Brasil, em 1953, substituiu Moura Gonçalves – que havia se transferido para a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – na chefia do laboratório de eletroforese, e começou a buscar uma linha própria de pesquisa. Depois de um período em que trabalhou para solucionar um problema de dopping de cavalos no Jockey Club Brasileiro, utilizando pioneiramente para tanto a técnica de cromatografia de papel, ela definiu a área de pesquisa em que atuou durante sua vida profissional: o peixe elétrico. Em 1956, a convite de Carlos Chagas Filho, Aída começou com o estudo do isolamento do receptor nicotínico da acetilcolina (um neuro-transmissor), utilizando o peixe elétrico como modelo animal. Trabalhando nesse tema, e em outros aspectos biofísicos e bioquímicos da transmissão neuromuscular, ela publicou mais de 60 artigos em uma dezena de revistas de circulação internacional, relacionadas às suas áreas de atuação: química de macromoléculas, biofísica molecular, metabolismo, bioenergética e enzimologia.

    Essas especialidades foram também as da atividade docente, que iniciou em 1952, ministrando cursos oferecidos pelo Instituto de Biofisica a diversas faculdades da Universidade do Brasil. Começou a dar aulas na pós-graduação do Instituto de Biofísica desde sua criação em 1962, onde orientou dissertações de mestrado e teses de doutorado até depois da aposentadoria em 1994. Até 1972 coordenou nessa pós-graduação o curso de Métodos Biofísicos de Análise, e posteriormente, os cursos de Biofísica-Química de Macromoléculas, e o de Avaliação de Peso Molecular de Proteínas. Entre 1972 a 1992, ministrou aulas de biofísica molecular na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    Entre o final dos anos 1950 e a década seguinte, Aída completaria sua formação acadêmica. Primeiro, realizando estágios de aperfeiçoamento profissional. Em 1958, com auxílio de uma bolsa de estudos da Fulbright Foundation, esteve no departamento de bioquímica da New York University, chefiado por Severo Ochoa, bioquímico espanhol naturalizado norte-americano, que com o bioquímico  Arthur Kornberg, dividiu o prêmio Nobelde Fisiologia e Medicina em 1959, pelas descobertas respectivas dos mecanismos de síntese biológica dos ácidos ribonucleico (Rna) e desoxirribonucleico (Dna). Logo a seguir, em 1960, com bolsa do CNPq, foi a Paris para trabalhar no laboratório de René Wurmser, no  Institut de Biologie Phisico-Chimique. O doutorado seria realizado no próprio Instituto de Biofísica, ingressando, em 1962. Antes de finalizar o curso, ela se casou com o empresário Jacob Voloch em 1964, sem ter tido filhos. Aída conquistaria o título de doutora em ciências (biofisica) em 1969, com a tese “Compostos do amônio quaternário e macromoléculas do órgão elétrico - medidas de interação”. Nesse mesmo ano, tornou-se professora adjunta do Instituto de Biofisica, e a convite  de  Jeannine Yon-Kahn, chefe do laboratório de enzimologia físico-quimica e molecular da Université Paris-Sud, Orsay, e com um auxílio da Délégation Générale à la Recherche Scientifique, fez pós-doutorado em Biofísica de Processos e Sistemas.

    Às atividades de pesquisa e ensino, Aída Hassón-Voloch somou as de administração científica. Entre 1953 e 1965, chefiou o laboratório de eletroforese, permanecendo à sua frente no período 1969-1992, quando este foi sucedido pelo laboratório de físico-química biológica. Ocupou também a chefia do departamento de Biofísica Molecular entre 1973 e 1978.

    Conceituada em sua área de atuação, sobretudo por suas pesquisas em peixe-elétrico, ela foi bolsista 1-A do CNPq de 1976 até a aposentadoria (1994). Membro associado da Academia Brasileira de Ciências em 1960, e membro titular em 1992, foi condecorada com a Ordem Nacional do Mérito Científico, no grau Comendador, em 2000. 

    Participou das atividades da Sociedade Brasileira de Biofísica (SBBf) a partir de 1976, tendo sido membro do Conselho Consultivo em diferentes períodos e presidente entre 1992 a 1994. Nesse período participou também da diretoria da Federação das Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE).

    Sócia emérita da Associação Brasileira de Química (1981), e presidente da Sociedade Brasileira de Biofísica (1992-1994), Aída foi membro de várias associações científicas nacionais - Associação Brasileira de Quimica, Sociedade Brasileira de Bioquimica, Sociedade Brasileira de Neurociência –, e estrangeiras - Biophysical Society, American Chemical Society, Societé Française de Biochimie et Biologie Moleculaire, American Association for the Advancement of Science, New York Academy of Science.

    Em sua homenagem, em 1999, seu nome foi atribuído ao laboratório de físico-química biológica. Aída Hassón-Voloch faleceu em 2007.

    Obras/Publicações:

    - Hassón-Voloch, A; Gonçalves, J.M. Análise Cromatográfica dos Ácidos Aminados da Crotoxina. Ciência e Cultura — SBPC. Brasil, São Paulo, vol.2, nº 1, 1950, pp.54-56

    -Chagas, C., Sollero, L. and Hassón-Voloch, A. Etude par analyse Chromatro Graphique de L´elimination des stimulants du systeme nerveaux. Paris : Sedex Editeur. Hommenage au Doyen R. Fabre, 1956

    -Hassón-Voloch, A. and Liepin, L. L. Reversible inhibition of electric organ cholinesterase by curare and curare-like agents. Biochimica et Biophysica Acta. vol. 75 , 1963, p. 397 - 401 

    -Hasson-Voloch, A. Curare and acetylcholine receptor substance. Nature. vol. 218 , 1968, p. 330 - 333 

    -Somlò, C., de Souza Machado, R. D. and Hassón-Voloch, A. Biochemical and cytochemical localization of ATPases on the membranes of the electrocyte of Electrophorus electricus (L.). Cell and Tissue Research. vol. 202 , 1977 , p. 175 - 282 

    -Quintana, E. G. , Somlò, S. and Hassón-Voloch, A. Modification of electrocyte membrane lipid composition induced by denervation. Brazilian Journal of Medical and Biological Research. vol. 21 , 1988 , p. 1163 - 1171 

    -Hassón-Voloch, A. Denervation alters protein-lipid interactions in membrane fraction from electrocytes ofElectrophorus electricus (L). Biophysical Chemistry. vol. 91 , 2001 , p. 93 - 104 

     

    Fontes

    Azevedo, N. ; Cortes, B. A.Ferreira,, L.O.; Sa, M.  Gênero e ciência: a carreira científica de Aída Hassón-Voloch. Cad. Pagu [online]. 2004, n.23, pp. 355-387.

    Aída Hassón-Voloch. Verbete biográfico. Disponível em: http://www.abc.org.br/~aida. Acesso 18/12/2013

    Laboratório de Físico-Química Biológica Aída Hassón-Voloch. Instituto de Biofísica. Disponível em: http://www.biof.ufrj.br/pesquisa/fisiobiof/lfqb/. Acesso 18/12/2013

     

    Autoria:

    Nara Azevedo é doutora em Sociologia, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências /Casa de Oswaldo Cruz-Fiocruz.


Niede Guidon (1933 - )

  • Niede Guidon nasceu em Jaú (SP) em 12 de março de 1933. Filha de Ernesto Francisco Guidon e Cândida Viana de Oliveira Guidon, tem quatro irmãos.

    Em 1956, ingressa no curso de história natural da Universidade de São Paulo (USP) e conclui a graduação em 1959. Em seguida, faz uma especialização em Arqueologia Pré-histórica, na Université Paris-Sorbonne, em Paris (1961-1962). Entre 1971 e 1975, Guidon faz o doutorado em Pré-história na Université Paris 1 Pantheon-Sorbonne, cuja tese teve como título Les peintures rupestres de Varzea Grande, Piauí, Brésil  e como orientador o prof. André Leroi-Gourhan.

    Ainda em 1959 tornou-se professora  da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo durante um breve período, tendo em seguida ingressado na Universidade de São Paulo (1961), como arqueóloga do Museu Paulista. Em 1973, tornou-se pesquisadora da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), tendo exercido posteriormente outros cargos na Fundação e ocupa atualmente a posição de diretora presidente. Em 1977, entra para o corpo docente da Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), na França. Entre os anos 1970 e 1980, Niede Guidon foi também consultora e colaboradora da Unesco, tendo sido diretora científica da Missão Arqueólogica de Salto Grande, no Uruguai.

    Professora visitante na Universidade Federal do Piaui, na Universidade Estadual de Campinas e na Universidade Federal de Pernambuco, também coordenou grupos de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique.

    Na década de 1970, ao vir ao Brasil em missão apoiada pelo governo francês, Niéde Guidon inicia as pesquisas na Serra da Capivara, no Piauí. Em 1979, é criado o Parque Nacional da Serra da Capivara, depois declarado Patrimônio Cultural da Humanidade.

    Com apoio do CNPq e de várias universidades brasileiras, Guidon  investiga há mais de 40 anos a pré-história no Brasil e suas pesquisas são referências fundamentais na arqueologia.

    Segundo Guidon, as pesquisas indicam que o homem “chegou pela desembocadura do Rio Parnaíba, no norte do Piauí, vindo da África”, por volta de 130  mil anos atrás após uma grande seca.

    Preocupada com a preservação do sitio arqueológico de São Raimundo Nonato, que integra o Parque Nacional da Serra da Capivara, Guidon defende o turismo como fonte de recursos para a região.

    Prêmios e Títulos:

    2010 - Medalha comemorativa dos 60 anos, UNESCO.

    2005 - Ordem do Mérito Cientítico - Grã Cruz, Ministério de Ciência e Tecnologia.

    2005 - Prêmio Príncipe Claus, Governo da Holanda.

    2004 - Cientista de Ano, SBPC.

    2002 - Comendador da Ordem do Mérito Cultural, Ministério da Cultura.

    1995  - Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito, Governo Francês.

    Principais Obras/publicações:

    - SANTOS, G. ; BIRD, M. I. ; PARENTI, F.; L.K.FIFIELD, ; GUIDON, N. ; Hausladen, P.A. . A revised chronology of the lowest occupation layer of Pedra Furada Rock Shelter, Piauí, Brazil: the Pleistocene peopling of the Americas. Quaternary Science Reviews, v. 22, p. 2303-2310, 2003.

    - GUIDON, N. ; Lessa, A.. Osteobiographic Analyses of Skeleton I, Sitio Toca dos Coqueiros, Serra da Capivara National Park, Brazil 11,060 BP: First results. American Journal of Physical Anthropology, v. 118, p. 99-110, 2002.

    - GUIDON, N. ; PEYRE, E. ; GUERIN, C. ; COPPENS, Y. . Resultados da datação de dentes humanos da Toca do Garrincho, Piaui- Brasil. CLIO. Série Arqueológica (UFPE), Recife, v. 14, p. 75-86, 2000.

    GUIDON, N. ; PEYRE, E. ; GUERIN, C. ; COPPENS, Y. . Des restes humains pléistocenes dans la grotte du Garrincho, Piauí, Brésil. Earth Planetary Sciences, Paris, p. 355-360, 1998.

    - GUIDON, N. . Peintures préhistoriques du Brasil; L'art rupestre du Piauí. Paris: Editions Recherches sur les Civilisations, 1991. 109p.

    - GUIDON, N.; DELIBRIAS, G. . Carbon-14 dates point to man in the Americas 32.000 yaers ago. Nature (London), v. 321, n.6072, p. 769-771, 1986.

     

    Fontes:

    ·        Currículo Lattes, consultado em 13/01/2014.

    ·        Entrevista ao Correio Braziliense, publicada em 06/10/2013.

     

    Autoria: Maria Lúcia de Santana Braga

    Doutora em Sociologia e analista em ciência e tecnologia do CNPq.


Ottilia Rodrigues Affonso Mitidieri ( 1927 - )

  • Ottilia Rodrigues Affonso Mitidieri, filha de Joaquim Affonso e MariaRodrigues Affonso, nasceu no Rio de Janeiro em 29 de março de 1927.

    Fez os cursos primário e ginasial no Instituto Lafayette e o científico no Colégio Andrews. Desde muito cedo, sempre sentiu especial interesse pelas Ciências Químicas e Biológicas, além do real prazer ao estudar Matemática. Talvez por isso mantém vivas, na memória, as aulas de Matemática do prof. Luiz Paixão, do Instituto Lafayette, e do Prof. Miguel Ramalho Novo, do Colégio Andrews.

    Num período da história feminina no qual as jovens optavam pelo casamento ou pelo magistério, ela escolheu uma profissão pouco comum para uma mulher, a de ser química. O que, para alguns, foi motivo de estranhamento, para seu pai foi motivo de orgulho e um leve sabor do sonho que acalentara durante tanto tempo: o de ter tido um filho homem. Química Industrial e Engenharia Química eram profissões para homem!

    Naquela época como nos dias atuais, o vestibular era uma verdadeira batalha a ser vencida. Muitos tentavam e poucos conseguiam.  O mérito e a capacidade eram os fatores que determinavam a abertura das portas o futuro profissional de cada um. Como outros estudantes que aspiravam ingressar em uma faculdade, passou insone, noites e noites, estudando e consolidando os conhecimentos adquiridos. Mas chegou o dia da prova e com ele a vitória conquistada: Escola Nacional de Química (ENQ).

    Da ENQ guarda as mais queridas lembranças:  a excelência do curso e de seus Mestres, e o convívio fraterno que a caracterizavam. Até hoje, preserva na lembrança as aulas do prof. Mario Saraiva que exigia perfeição na montagem da aparelhagem de laboratório.

    Formatura! Momento de sentimentos contraditórios - a enorme alegria da conquista do título e a já sentida saudade dos queridos colegas - amigos – irmãos com os quais conviveu.

    E foi lá, na Escola Nacional de Química, que ela encontrou aquele que viria a ser marido e companheiro de sua vida, pai de seus três filhos, Ricardo José, Paulo Emilio e Fernanda Maria, e igualmente apaixonado pela pesquisa, Emilio Mitidieri. Juntos trabalharam e auferiram sucesso e renome.

    Ela conta que em 1953, quando dirigiu-se ao então Instituto Oswaldo Cruz (IOC), hoje unidade da Fiocruz, para inscrever-se em um curso de Bioquímica, foi dominada por forte emoção. Ao subir as escadas do castelo mourisco, viu-se entrando num templo sagrado e foi assim que se sentiu durante o tempo em que esteve no IOC - respeitando e admirando os grandes mestres que lá se dedicavam integralmente à Ciência. Ao término do curso, foi convidada pelo Dr. Gilberto G. Villela para trabalhar no IOC. Outra grande emoção surpreendente e inesperada.

    No laboratório de Bioquímica com Emilio Mitidieri, Luiz Paulo Ribeiro e Dr. Villela, deram início à linha de pesquisa com grande entusiasmo e determinação. Quando foi realizado o concurso para o IOC, inscreveu-se e foi aprovada.

    Ter vivenciado o período conhecido como “Massacre de Manguinhos” deixou-lhe amargas lembranças. Foram tempos difíceis, tristes e que não ficaram limitados àquele massacre. Como era difícil trabalhar!

    Mais tarde, mudanças administrativas ocorreram. O IOC passou a regime de CLT e os que trabalhavam como estatutários, não poderiam lá continuar. Sair do Instituto Oswaldo Cruz foi o momento mais difícil de sua vida profissional, traumático mesmo. Tendo que sair, aceitou o convite da direção do Instituto Nacional de Câncer que visava expandir e fortalecer o seu Centro de Pesquisa Básica. Lá reiniciou suas atividades.

    Sua linha de pesquisa visava o estudo de enzimas, especialmente da xantina oxidase e da superóxido dismutase. Da xantina oxidase, fez sua localização intracelular, estudou a ação de drogas, a importância dos fosfolipídeos para a sua atividade, seu comportamento em tumores induzidos quimicamente, sua relação com radicais livres e a superóxido dismutase.  Ottilia publicou cinco livros, entre os quais "Paper Electrophoresis - A Review of Methods and Results", editado por Elsevier Publ. Co., Amsterdam, 1961 e "Problemas e Exercícios em Bioquímica", Editora Interciência Ltda., Rio de Janeiro, 1978. Os resultados de seu trabalho foram publicados em dezenas de artigos, sendo seis deles na revista Nature e apresentados em congressos, simpósios e reuniões científicas.

    Embora não tenha exercido a atividade acadêmica, sempre se dedicou à orientação de estudantes, seja na iniciação científica seja no seu aperfeiçoamento, estimulando-os e orientando-os na elaboração de dissertações e teses. Quantos lhe são gratos!

    Após aposentadoria compulsória, passou a atuar no Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo De Meis da UFRJ como pesquisadora convidada, onde está até hoje. Sua dedicação voluntária, humildade, paciência e contribuição científica com os jovens de Iniciação Científica e Pós-graduandos é admirada por todos os estudantes que convivem com essa brilhante pesquisadora.

    Autoria:

    Verbete elaborado pela filha da pesquisadora Fernanda Maria Affonso Mitidieri Canelas,

    Fernanda Mitidieri é formada em Ciências Biológicas pela Universidade Santa Úrsula, com mestrado e doutorado pelo Departamento de Bioquímica Médica da UFRJ (atual Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis). Atualmente é professora de Bioquímica da Universidade Gama Filho.

    com a colaboração de :

    Vívian Rumjanek é professora titular do Instituto de Bioquímica Médica Prof. Leopoldo De Meis-  Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

    Flavio Eduardo Pinto da Silva é  Pós -Doutorando do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo De Meis- UFRJ

    Claudia Juberg é tecnologista da Fundação Oswaldo Cruz, jornalista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia. 


Sonia Dietrich (1935 - 2012)

  • Nasceu em São Paulo (SP) em 27 de janeiro de 1935 e é considerada uma das pioneiras no desenvolvimento da fisiologia e bioquímica de plantas. Formou-se em história natural na Universidade de São Paulo em 1957. Já em 1960 trabalhou no grupo do famoso bioquímico argentino Luis Federico Leoir, ganhador do Prêmio Nobel de 1970 pela descoberta do mecanismo principal da síntese de carboidratos em seres vivos. De 1964 a 1966 trabalhou na University of Wisconsin-Madison e de 1967 a 1969 realizou seu doutorado em bioquímica de alcaloides na University of Saskatchewan no Canada.

    Sonia Dietrich trabalhou por toda a carreira (1959 a 1992) e posteriormente como Professora Visitante (de 1992 até a sua morte em 2012) no Instituto de Botânica de São Paulo, onde consolidou a liderança da Seção de Fisiologia e Bioquímica de Plantas (hoje o Núcleo de Pesquisa em Fisiologia e Bioquímica).

    A sua liderança consolidou uma dos mais fortes grupos de pesquisa em carboidratos de plantas do Brasil e formou estudantes através dos programas de pós-graduação em Biologia Molecular da Universidade Federal de São Paulo (então Escola Paulista de Medicina), Botânica da USP e da UNICAMP, em todo o Brasil. Orientou 27 teses e dissertações ao longo de 37 anos de carreira, produzindo 102 trabalhos científicos. Já aposentada, Sonia Dietrich liderou a formação e foi a primeira coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Biodiversidade,  o primeiro do país. 

    Na Ciência, conduziu estudos pioneiros da busca de polissacarídeos (notadamente os polissacarídeos de parede celular e os frutanos) em plantas nativas do Brasil, descobrindo um grande número de novas espécies úteis e ao mesmo tempo ajudando a compreender a importância destes compostos na evolução biológica em plantas. As descobertas de Sonia Dietrich e seus alunos estão possibilitando hoje o desenvolvimento de aplicações de polissacarídeos de plantas brasileiras em biotecnologia. Ao mesmo tempo, deu início aos principais trabalhos que levaram ao estabelecimento de modelos biológicos de espécies nativas para os estudos fisiológicos e bioquímicos, ajudando a compreender vários dos mecanismos de estabelecimento de espécies brasileiras à Mata Atlântica e ao Cerrado. Neste sentido, a sua atuação científica pioneira abriu as portas para o conhecimento do funcionamento da biodiversidade brasileira o que contribuiu com os primeiros esforços de conservação da biodiversidade.

    Sonia Dietrich foi também uma das pesquisadoras pioneiras em estudos dos mecanismos de resposta de defesa de plantas, produzindo trabalhos fundamentais, como por exemplo nas respostas bioquímicas do cafeeiro à ferrugem, que tem reconhecimento internacional. Em muitas oportunidades, mesclou as duas linhas de pesquisa e produziu trabalhos em que estudou o papel dos polissacarídeos de parede celular nos mecanismos de defesa das plantas.

    Sonia Dietrich foi uma figura de grande importância no cenário científico nacional, participando ativamente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, do Conselho Deliberativo do CNPq e sendo membro da Academia Brasileira de Ciências. Nestes foros, Sonia Dietrich foi uma das pesquisadoras que ajudou a consolidar a estabilidade do financiamentos à pesquisa que o Brasil apresenta desde o início do século XXI.

    Sua atuação foi fundamental em São Paulo, onde foi presidente da Comissão Permanente de Tempo Integral (CPRTI) por vários anos e consolidando a carreira de Pesquisador Científico nos 18 Institutos de Pesquisa de São Paulo. O seu rigor e valorização da qualidade científica lhe valeu o apelido de Dama de Ferro, sendo temida e respeitada por sua inteligência sagaz e profundo senso crítico.

    Sonia Dietrich foi também um personagem fundamental para a Biologia no Brasil, pois foi Vice-presidente do Conselho Federal de Biologia e atou como um dos principais pesquisadores na luta para a regulamentação da carreira de biólogo em nosso país.

    No cenário internacional, foi fundadora da Rede Latinoamericana de Botânica (RLB) e membro da Rede Latinoamericana de Biologia, (RELAB) sendo uma das responsáveis por iniciar a integração científica na região através da consolidação de cursos e abrindo oportunidades para a troca de estudantes de pós-graduação entre os diferentes países da América Latina.

    A sua última contribuição foi como editora-chefe da Revista Brasileira de Botânica, tendo sido responsável pela transformação desta em Brazilian Journal of Botany (Springer), oficialmente registrado um dia antes de sua morte.

    Autoria: Marcos Silveira Buckeridge

    Professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Realiza pesquisas em fisiologia, bioquímica e biologia molecular de plantas com enfoques no funcionamento de árvores tropicais, respostas de plantas às mudanças climáticas globais e bioenergia.


Therezinha Lins de Albuquerque (1926 -)

  • Nascida em Recife, em 1926, Albuquerque teve seu primeiro contato com a Psicologia ainda na década de 1940, durante sua formação em Pedagogia, concluída em 1949, na primeira turma da Faculdade de Filosofia de Recife.  Entretanto, sua inserção efetiva na Psicologia ocorreu após de sua mudança para o Rio de Janeiro em 1951: naquela ocasião, Ulisses Lins de Albuquerque, seu pai, fora eleito deputado federal pelo estado de Pernambuco e a família o acompanhou na vinda para a então capital federal.

    Recém-graduada em Pedagogia, Albuquerque (2003) relata que estava decepcionada com a área da educação, julgando que esta não apresentava um dinamismo e um contato mais profundo com as questões humanas. Em 1952, já no Rio de Janeiro, foi apresentada a Elisa Dias Velloso (1914- 2002), então diretora do Centro de Orientação Juvenil (COJ), uma clínica pública de orientação psicológica a jovens e crianças, a primeira da América Latina no modelo das child guidance clinics norte-americanas. A criação do COJ esteve a cargo de Helena Antipoff e Emilio Mira y López, dois dos personagens de maior destaque na constituição da Psicologia no Brasil.

    Albuquerque é convidada a realizar um estágio profissional em Psicologia no COJ e logo é efetivada na equipe. Realizava psicodiagnóstico (testes de personalidade, inteligência e aptidões específicas) e a chamada “orientação vital”, nos casos cuja demanda era marcadamente psicológica: casos de desajustamento emocional, familiar, escolar, orientação profissional e que não envolvessem questões psiquiátricas (Degani-Carneiro, Messias & Jacó-Vilela, 2007).

    Por meio de estudos teóricos de técnicas psicoterápicas e principalmente do contato com profissionais estrangeiros, como a estadunidense Reba Campbell, o COJ foi progressivamente se deslocando de um perfil estritamente psicodiagnóstico, que caracterizava a Psicologia brasileira à época, passando a realizar atendimentos psicoterápicos, inicialmente na abordagem rogeriana (Degani-Carneiro, 2010). Além dos atendimentos, o COJ era um dos poucos locais disponíveis para formação prática em orientação psicológica e psicoterapia, recebendo estagiários de diversos lugares do Brasil, tanto profissionais quanto graduandos (após a criação do curso da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1953 – o primeiro do Brasil).

    Tais fatos evidenciam o pioneirismo do COJ na psicologia clínica, ainda na década de 1950, anteriormente à regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil (1962) e em um momento, no qual setores da psiquiatria e as sociedades de psicanálise faziam fortes pressões no sentido de resguardar a psicoterapia como atividade privativa dos médicos (Degani-Carneiro & Jacó-Vilela, 2012). Após a saída de Velloso, Albuquerque dirigiu o COJ de 1968 até sua saída em 1977.

    Albuquerque atuou simultaneamente em outra instituição federal, o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), órgão do Ministério da Educação, através do qual organizou e dirigiu, entre 1955 e 1967, o Serviço de Orientação Psicopedagógica (SOPP), um gabinete de psicologia na Escola Guatemala, no Rio de Janeiro (Albuquerque & Dupret, 2009). Esta era uma escola experimental, fundada por Anísio Teixeira, segundo os moldes da Escola Nova, baseada nos princípios de Dewey e de Claparède e na qual era importante, portanto, a individualização do aluno. Daí decorre a importância da Psicologia nesta escola (Oliveira, Degani-Carneiro & Messias, 2011).

    A atuação de Albuquerque no contexto do SOPP guardava muitas semelhanças com a perspectiva do COJ, com o diferencial da inserção no ambiente escolar. Inicialmente, consistia na aplicação de testes psicológicos nos alunos. Com a constatação da ineficiência dessa aplicação, o SOPP iniciou um trabalho junto às professoras, visando capacitá-las a utilizar os dados dos testes junto aos de sua experiência em sala de aula (e não sobrepondo-os a esta). A experiência do SOPP é considerada inovadora na área da psicologia escolar pela visão crítica que trouxe em relação aos testes e à adoção de um perfil mais aproximado da psicopedagogia. Tanto na clínica quanto na escola, o trabalho de Albuquerque se destaca por serem os primeiros passos na direção de uma atuação psicoterápica pelos psicólogos.

    Albuquerque também foi relevante no processo de constituição dos Conselhos Federal e Regionais de Psicologia no Brasil – órgãos de fiscalização técnica e ética do exercício profissional dos psicólogos. Foi a primeira presidente do Conselho Regional do Rio de Janeiro (1977-1979) e vice-presidente do Conselho Federal (1980-1982). Além disto, foi uma das fundadoras da Associação de Profissionais Psicólogos do Estado do Rio de Janeiro, que depois se transformou no Sindicato dos Psicólogos do Rio de Janeiro (Esch, Lima & Rezende, 2001).

    A trajetória pessoal e profissional de Albuquerque permite observar a relevância da participação feminina na emergência e autonomização da profissão de psicólogo no Brasil, ainda que essa participação nem sempre seja contemplada pela historiografia tradicional.  Embora esta contemple a presença dos homens que foram os catedráticos e/ou fizeram parte das comissões para discussão dos projetos de Lei sobre a regulamentação da profissão, foram sem dúvida as mulheres que, nas décadas de 1940 a 1960, com sua presença majoritária nos diversos cursos de curta duração voltados à formação teórica e técnica em psicologia existentes à época, nos movimentos em prol da regulamentação da profissão e dos cursos de psicologia no Brasil, nas associações recém-criadas, nos recém-fundados Conselhos, como professoras nos novos cursos de graduação.

    Enfim, sem dúvida, foram as mulheres que construíram a nova profissão. Therezinha é um exemplo dessa geração a que devemos nosso respeito.

     

    *Uma versão inicial desta biografia foi publicada em língua inglesa na seção “Heritage” do boletim da Society for The Psychology of Women / American Psychological Association (APA). Disponível em http://www.apadivisions.org/division-35/about/heritage/therezinha-dealbuquerque-biography.aspx

    Fontes:

    Albuquerque, T. L. (2003). Depoimento. In Jacó-Vilela, A. M., Cerezzo, A. C., Rodrigues, H. B. C. (Orgs), Clio-Psyché Paradigmas – Historiografia, psicologia, subjetividades. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.

    Albuquerque, T. L & Dupret, L. (2009) Encontros no Caminhar da Psicologia educacional no Brasil. (2009). Rio de Janeiro: Letra Capital.

    Degani-Carneiro, F. (2010). A infante ciência e seus infantes: o cuidado com a infância e a autonomização da Psicologia no Brasil nas décadas de 1930-1960. Monografia de graduação em Psicologia. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

    Degani-Carneiro, F. & Jacó-Vilela, A. M. (2012). O cuidado com a infância e sua importância para a constituição da Psicologia no Brasil. Revista Interamericana de Psicologia. 46(1), 159-170.

    Degani-Carneiro, F., Jacó-Vilela, A. M., Messias, M. C. N. (2007). Autonomização da Psicologia no Rio de Janeiro: o Centro de Orientação Juvenil (COJ). In Associação Brasileira de Psicologia Social (Org.), Anais de Trabalhos Completos do 14º Encontro Nacional da Associação Brasileira de Psicologia Social. Rio de Janeiro.

    Esch, C. F., Lima, S. C. C., Rezende, M. S. (2001). Albuquerque, Therezinha Lins de. In Campos, R. H. F. (Org.), Dicionário Biográfico da Psicologia no Brasil. Rio de Janeiro/Brasília: Imago, CFP.

    Oliveira, F. M., Degani-Carneiro, F., & Messias, M. C. N. (2011). Serviço de Orientação Psicopedagógica (SOPP). In Jacó-Vilela, A. M. (Org.), Dicionário Histórico de Instituições de Psicologia no Brasil. Rio de Janeiro/Brasília: Imago/CFP.

    Autoria:

    Ana Maria Jacó-Vilela é pesquisadora em história da psicologia no Brasil, coordenando o Núcleo Clio-Psyché, de pesquisas em  História da Psicologia;  bolsista de produtividade do CNPq, cientista do nosso estado da Faperj, Procientista da UERJ. Professora do curso de graduação e do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Uerj, que atualmente coordena. Membro da Mesa Diretora da Sociedade Interamericana de Psicologia. Coordenadora de Rede Iberoamericana de Pesquisadores em História da Psicologia.  

    Filipe Degani Carneiro é doutorando em Psicologia Social pelo Programa de Psicologia Social da UERJ.

    Maria Cláudia Novaes Messias  é mestre em Psicologia Social pela UERJ


Yvonne Primerano Mascarenhas (1931 - )

  • Nasceu em 21 de julho de 1931, em Pederneiras, interior do Estado de São Paulo, sendo a primeira das duas filhas do casal Francisco Primerano e Luiza Lopes Primerano. O pai era filho de imigrantes italianos oriundos da Calábria. Quando ela tinha dez anos, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, em função do trabalho do pai, e fixou-se em Copacabana. Nessa cidade, Yvonne cursou o clássico no Colégio Mello e Souza, uma escola particular tradicional. Em 1953, graduou-se em Química pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. No ano seguinte, obteve o título de bacharel em Física pela Universidade do Estado da Guanabara, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em 1956, foi contratada como professora assistente pela Escola de Engenharia de São Carlos, na época única unidade da Universidade de São Paulo na cidade.

    Seu interesse pela cristalografia teve início no Rio de Janeiro, ao participar de uma disciplina ministrada pelo professor Elisiário Távora, cujo principal interesse era a Geoquímica e que acabava de retornar de seu doutorado, realizado no Massachusetts Institute of Technology sob a orientação de M. J. Buerger, renomado cristalógrafo e mineralogista americano. O curso evidenciou a forte correlação existente entre a estrutura cristalina e as propriedades dos materiais. Esse interesse consolidou-se durante um estágio de pesquisa no laboratório de cristalografia da Universidade de Pittsburgh, entre 1959 e 1960, realizado com apoio da Comissão Fulbright. Voltando ao Brasil, defendeu em 1963, na Escola de Engenharia de São Carlos, a tese de doutorado intitulada “Determinação de estruturas cristalinas por difração de raios X: estudo do formato manganoso bi-hidratado”, sob a orientação do Dr. Theodureto de Arruda Souto. Após se doutorar, foi pesquisadora na Universidade de Princeton, em 1966, novamente com apoio da Comissão Fulbright, e professora visitante no Instituto Politécnico Nacional do México, em 1967.

    Já na década de 60, seus trabalhos em cristalografia, pioneiros no Brasil, originaram o grupo de cristalografia do Instituto de Física e Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo. O contato com cristalógrafos do exterior, durante seus vários estágios como professora visitante, incentivou-a a fundar, junto com outros pesquisadores, a Sociedade Brasileira de Cristalografia, em 29 de outubro de 1971. Foi presidente desta entidade em diversas ocasiões, mesmo depois de sua aposentadoria.

    Em 1971, obteve o título de livre-docente pela Escola de Engenharia de São Carlos. Atuou ainda como professora visitante na Harvard Medical School, de 1972 a 1973, e no Birkbeck College da Universidade de Londres, entre 1979 e 1980. Foi professora titular do Instituto de Física e Química de São Carlos a partir de 1981. Quando, em 1994, esta unidade foi dividida nos Institutos de Física e de Química, a professora Yvonne permaneceu no primeiro, até sua aposentadoria compulsória em 2001. No entanto, nunca se desligou das atividades de pesquisa e ensino.

    Membro titular da Academia Brasileira de Ciências desde 2001, foi agraciada com dezenas de prêmios e títulos, entre os quais se destaca o da Ordem Nacional do Mérito Científico, na classe Grã-Cruz, concedido em 1998 pelo então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Mais recentemente, em 2013, foi homenageada com o título de pesquisadora emérita do CNPq.

    Em sua trajetória acadêmica, orientou inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado, tendo publicado mais de 150 artigos, em revistas indexadas, sobre cristalografia.

    Além da paixão pela cristalografia, a professora Yvonne dedica-se também à difusão científica. Coordena desde 2001um grupo de trabalho sobre o tema no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, além de uma agência de difusão cientifica no portal Ciência Web. É também engajada em artes, e principalmente em música. Nos anos 70, deu apoio ao curso de iniciação musical organizado para os estudantes da Escola de Engenharia de São Carlos, na Fazenda Monte Alegre, em Descalvado. No início dos anos 90, coordenou o movimento de música erudita da Fundação Theodoreto Souto. Foi casada com o professor e pesquisador Sergio Mascarenhas, com quem teve quatro filhos, Sergio Roberto, Yvone Maria, Helena e Paulo Roberto.

    Yvonne continua atuante, como colaboradora e professora aposentada em exercício, no Instituto de Física de São Carlos. Na homenagem que recebeu do Instituto por ocasião de seus 80 anos, foi chamada de “o cristal de Pederneiras”.

    Blog Além das Facetas: http://ccmc.ifsc.usp.br/alemdasfacetas/

    Entrevistas por telefone com a professora Yvonne em dezembro de 2013.

    Autoria: Ana Candida Martins Rodrigues.

    Professora do Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos.