Pioneiras da Ciência no Brasil - 3ª Edição

Em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), o CNPq lança hoje a terceira edição das Pioneiras da Ciência no Brasil. Conforme os parâmetros já divulgados, foram selecionadas cientistas de diversas áreas do conhecimento que tiveram relevante atuação como pesquisadoras e contribuíram para a formação dos campos e linhagens científicas.

Agradecemos a contribuição de vários/as pesquisadores/as e instituições que sugeriram nomes e colaboraram na produção dos verbetes aqui publicados. Mais uma vez, destacamos que o Programa Mulher e Ciência considera fundamental criar espaços de visibilidade para as mulheres e as suas contribuições para as diferentes áreas do conhecimento.

Somente demos início à divulgação da história das pesquisadoras e cientistas brasileiras e caso você entenda que ainda há outras esquecidas ou, então, outras ações que possam contribuir para o incentivo e divulgação das mulheres nas ciências, escreva e envie para a equipe do Programa Mulher e Ciência pelo endereço: programamulhereciencia@cnpq.br  

Aïda Espinola (1920 - )

  • Aïda Espinola nasceu no dia 18 de abril de 1920, na Rua Conde de Bonfim, Bairro da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro, em uma casa de uma vila, muito confortável.

    Sua família mudou-se da Tijuca para Ipanema,  próximo à Praça Nossa Senhora da Paz, que, ao tempo, era denominada  Praça Souza Ferreira. Depois de Ipanema, a família mudou-se para a Rua Xavier da Silveira, em Copacabana, no primeiro quarteirão próximo à praia,

    O primário e o ginasial foram cursados no Colégio Mallet Soares, na Rua Xavier da Silveira, Copacabana. Em 15 de dezembro de 1935, concluiu o ginasial com apenas 15 anos de idade.

    O seu grande sonho era ser "doutora", cursar medicina. Seu pai, aconselhado por um amigo que trabalhava com ele, e que lhe dizia: "Esta menina é muito bonita. Se ela for cursar medicina, que são seis anos, ela não completará o curso, porque casará bem antes. Ela tem de fazer Química, que são 4 anos". Este amigo convenceu seu pai que Aïda deveria estudar Química.

    Formada em 1941 em Química Industrial, com apenas 21 anos de idade, pela Universidade do Brasil. Em 1954, formou-se em Engenharia Química.

    Seus estudos sempre foram direcionados para a pesquisa química, desenvolvendo-se nas etapas:

    - Mestrado (M.Sc.), em Química Analítica, na University of Minnesota, Minneapolis, USA (1958), com o Orientador Ernest B. Sandell, Diretor Izaak Maurits Kolthoff.

    - Doutorado (Ph.D.), com "major" em Química, "minor" Geoquímica, na Pennsylvania State University, State College, USA (1974), com o Orientador Joseph Jordan.

    - Pós-Doutorado em Engenharia Eletroquímica, Eletrocatálise e Elipsometria, na Universidad de La Plata, Argentina.

    Após sua formatura como química industrial, indo visitar a Escola Nacional de Química, logo à entrada, encontrou dois colegas, um deles, Paulo Emidio Barbosa, os quais a informaram que o Departamento Nacional da Produção Mineral tinha aberto concurso para o cargo de Tecnologista Químico. Retornando à casa, comentou com a mãe, que logo se informou da documentação necessária, e a inscreveu no concurso.

    O resultado do seu concurso público (DASP), para o cargo de Tecnologista Químico, com admissão em março 1942, não poderia ser melhor. Aïda passou em 1º lugar. Os dois colegas que a informaram do concurso tiraram 2º e 3º lugares, e foram também admitidos no Laboratório da Produção Mineral (LPM), Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM), Ministério das Minas e Energia (MME).

    Aïda trabalhou, inicialmente, no Laboratório de Produção Mineral, como responsável pelas análises dos minérios brasileiros. Estas análises, hoje, são de grande importância em termos do conhecimento das reservas minerais do Brasil.

    Esse trabalho resultou em várias medalhas, como, por exemplo, a "Medalha Fritz Feigl" e a "Medalha João Christovão Cardoso" do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E muitas outras honrarias, sendo, a principal, nos últimos anos, o título de Pesquisadora Emérita do CNPq, que recebeu em 17 de abril de 2006, das mãos do Vice-Presidente da República do Brasil, Sr. José de Alencar.

    Uma das curiosidades de seu trabalho em análises de rochas foi ter sido, o seu laboratório, escolhido pela NASA, entre numerosos outros laboratórios, para análise das rochas recolhidas na Lua, em locais pré-determinados, antes do início do Projeto Apollo.

    Recentemente, o ex-Diretor do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Angelo da Cunha Pinto, em depoimento publicado no site "Memórias da Química", declarou que ela foi pioneira em tudo.  Seu trabalho com pilhas a combustível foi, também, pioneiro, e resultou no atual ônibus a hidrogênio - o Ônibus Verde, da COPPE/UFRJ - que circula no campus da cidade universitária da UFRJ.

    Em 02 de outubro 1943, casou-se com Cesar Godinho Espinola, um colega de turma do Colégio Mallet Soares e da Escola Nacional de Química.  Não tiveram filhos. Ele faleceu em 1997, aos 79 anos, e, em 2013 estariam comemorando as Bodas de Vinho - 70 anos de casamento.

    Sua vida sempre foi agitada, nunca parou, sempre atendendo a pedidos técnicos, os mais variados possíveis, inclusive consultorias diversas em vários campos da química, eletroquímica, telecomunicações e eletrônica. Por todas essas atividades, que continuam, nos dias de hoje, sua vida foi sempre cheia de realizações e descobertas.

    No Laboratório Nacional da Produção Mineral, ela acompanhou, desde o início, a descoberta do petróleo, no Brasil. Em seu laboratório conduziu a análise química do óleo extraído do primeiro barril de Lobato, Bahia. 

    Por ocasião dos 45 anos da COPPE, em 2008, ao receber o prêmio pela contribuição na trajetória da COPPE, o apresentador mencionou o seu trabalho como sendo de grande interesse para a exploração de petróleo nas camadas do Pré-sal, e as pesquisas em geradores de eletricidade de pilhas a combustível. Disse que ela acertou ao acreditar serem essas as fontes de energia do futuro.

    Aïda mantém o compromisso de escrever mais um livro. No ano de 1999, estava em curso um projeto de um novo livro, com o professor Horácio Cintra de Magalhães Macedo. Era o DITCHA, Dicionário Técnico-Científico Horacio e Aïda, com a morte de Horácio, em 24 de fevereiro de 1999, o projeto foi temporariamente suspenso, por ela estar escrevendo dois novos livros que já foram publicados: Fritz Feigl - Atualidades de seu Legado Científico, em 2009, com 344 páginas, pela COPPE/UFRJ e Instituto de Química da UFRJ; e, no ano de 2013, o OURO NEGRO - Petróleo no Brasil. De Lobato DNPM-163 a Tupi RJS-646, pela Editora Interciência, 494 páginas. Este último livro será também publicado no formato de livro eletrônico, e-book. Com estes dois novos livros, Aïda completou uma lista de 12 livros publicados.

    Como sempre relatou o geólogo americano Walter K. Link, do DEPEX, em seus famosos memorandos datados de agosto de 1960: "O caminho é o mar". Aïda não cansa de dizer que o pré-sal é uma grande riqueza que deverá ser explorada nas próximas décadas, observando-se, sempre a segurança contra acidentes. Este é o caminho a ser seguido no futuro.

    O Prof. Angelo da Cunha Pinto, ex-diretor do Instituto de Química da UFRJ em seus discursos é sempre enfático ao dizer: "eu afirmo que a Professora Aïda Espinola está na raiz da química brasileira".

    Aïda Espinola pode ser chamada por vários apelidos, mas o último é o que melhor se encaixa no seu perfil: a Dama do Petróleo (revista Claudia, dezembro 2013, pág. 48).

     

    Autoria: Ângelo da Cunha Pinto

    Professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro titular da Academia Brasileira de Ciências, editor do Journal of the Brazilian Chemical Society e da Revista Virtual de Química, oficial Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico. Foi Diretor do Instituto de Química da UFRJ.

     

    Foto: Daryan Dornelles (revista CLAUDIA)


Aída Hassón-Voloch (1922-2007)

  • Carioca do bairro da Tijuca, nascida em 1922, e proveniente de uma família de imigrantes judeus socialmente bem posicionada, Aída Hassón-Voloch realizou o secundário em uma escola privada inglesa, o colégio Aldridge, onde, sob a influência do professor de química, passou a se interessar por esse campo de conhecimento. Estimulada pelo pai a prosseguir sua educação em nível superior, ela ingressou na  Escola Nacional de Química (ENQ) em 1941, onde se formou em 1944,  com a aspiração de se tornar química industrial.

    As restritas oportunidades de trabalho para os químicos industriais, na época, a levariam, após a formatura, a realizar estágios não remunerados. Primeiro, no laboratório de Produção Mineral (LPM), pertencente ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), chefiado por  Fritz Feigl (1891-1971), químico suíço que emigrou para o Brasil em 1940, e é reconhecido como um dos expoentes da química analítica do século XX. Em seguida, conseguiu estágio no Instituto Nacional de Tecnologia (INT), na Divisão de Química Orgânica, onde permaneceu por um curto período após se desinteressar pelo trabalho que ali era executado.

    As expectativas profissionais da jovem química seriam modificadas e seu destino profissional alterado a partir de um encontro fortuito, em 1947, com Carlos Chagas Filho em um navio em que viajavam de regresso da Europa para o Brasil. Ele era conhecido de seu pai, e a convidou para um estágio no Instituto de Biofísica, recém-criado na Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    O que seria um estágio temporário sem remuneração, se transformou em um projeto profissional de toda a vida. Ali a jovem química se transformou em pesquisadora e professora de biofísica, realizando uma carreira científica bem-sucedida.

    Inicialmente, ela trabalhou como auxiliar de pesquisa de Tito Leme Lopes, que preparava sua tese para o concurso à cátedra de física aplicada à farmácia, da Faculdade de Farmácia. Em seguida, se integrou ao laboratório de eletroforese, dirigido por José Moura Gonçalves, bioquímico mineiro que trabalhara com José Baeta Viana na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, e que retornara de viagem de estudos aos Estados Unidos no final de 1947. Com ele Aída aprendeu a técnica de eletroforese – sendo Moura Gonçalves reconhecido como seu introdutor no Brasil -, e escreveu o primeiro trabalho de cromatografia em papel em 1950.

    Em 1952, ela partiu para um período de estudos na Europa. Primeiro, frequentou por um curto período, com bolsa do CNPq, o laboratório de bioquímica de Roger Acher da Faculdade de Ciências da Universidade de Paris. Em seguida, se dirigiu ao Departamento de Bioquímica da Universidade de Cambridge, onde, com bolsa do  British Council,permaneceu durante um ano junto à equipe de Fred Sanger, laureado com o Prêmio Nobel de Química em duas ocasiões: em 1958, por seu trabalho sobre a estrutura das proteínas, especialmente a insulina, e em 1980, quando dividiu a premiação com Paul Berg e Walter Gilbert, pela contribuição à determinação das seqüências de base do ácido nucléico.

    Ao retornar ao Brasil, em 1953, substituiu Moura Gonçalves – que havia se transferido para a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – na chefia do laboratório de eletroforese, e começou a buscar uma linha própria de pesquisa. Depois de um período em que trabalhou para solucionar um problema de dopping de cavalos no Jockey Club Brasileiro, utilizando pioneiramente para tanto a técnica de cromatografia de papel, ela definiu a área de pesquisa em que atuou durante sua vida profissional: o peixe elétrico. Em 1956, a convite de Carlos Chagas Filho, Aída começou com o estudo do isolamento do receptor nicotínico da acetilcolina (um neuro-transmissor), utilizando o peixe elétrico como modelo animal. Trabalhando nesse tema, e em outros aspectos biofísicos e bioquímicos da transmissão neuromuscular, ela publicou mais de 60 artigos em uma dezena de revistas de circulação internacional, relacionadas às suas áreas de atuação: química de macromoléculas, biofísica molecular, metabolismo, bioenergética e enzimologia.

    Essas especialidades foram também as da atividade docente, que iniciou em 1952, ministrando cursos oferecidos pelo Instituto de Biofisica a diversas faculdades da Universidade do Brasil. Começou a dar aulas na pós-graduação do Instituto de Biofísica desde sua criação em 1962, onde orientou dissertações de mestrado e teses de doutorado até depois da aposentadoria em 1994. Até 1972 coordenou nessa pós-graduação o curso de Métodos Biofísicos de Análise, e posteriormente, os cursos de Biofísica-Química de Macromoléculas, e o de Avaliação de Peso Molecular de Proteínas. Entre 1972 a 1992, ministrou aulas de biofísica molecular na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    Entre o final dos anos 1950 e a década seguinte, Aída completaria sua formação acadêmica. Primeiro, realizando estágios de aperfeiçoamento profissional. Em 1958, com auxílio de uma bolsa de estudos da Fulbright Foundation, esteve no departamento de bioquímica da New York University, chefiado por Severo Ochoa, bioquímico espanhol naturalizado norte-americano, que com o bioquímico  Arthur Kornberg, dividiu o prêmio Nobelde Fisiologia e Medicina em 1959, pelas descobertas respectivas dos mecanismos de síntese biológica dos ácidos ribonucleico (Rna) e desoxirribonucleico (Dna). Logo a seguir, em 1960, com bolsa do CNPq, foi a Paris para trabalhar no laboratório de René Wurmser, no  Institut de Biologie Phisico-Chimique. O doutorado seria realizado no próprio Instituto de Biofísica, ingressando, em 1962. Antes de finalizar o curso, ela se casou com o empresário Jacob Voloch em 1964, sem ter tido filhos. Aída conquistaria o título de doutora em ciências (biofisica) em 1969, com a tese “Compostos do amônio quaternário e macromoléculas do órgão elétrico - medidas de interação”. Nesse mesmo ano, tornou-se professora adjunta do Instituto de Biofisica, e a convite  de  Jeannine Yon-Kahn, chefe do laboratório de enzimologia físico-quimica e molecular da Université Paris-Sud, Orsay, e com um auxílio da Délégation Générale à la Recherche Scientifique, fez pós-doutorado em Biofísica de Processos e Sistemas.

    Às atividades de pesquisa e ensino, Aída Hassón-Voloch somou as de administração científica. Entre 1953 e 1965, chefiou o laboratório de eletroforese, permanecendo à sua frente no período 1969-1992, quando este foi sucedido pelo laboratório de físico-química biológica. Ocupou também a chefia do departamento de Biofísica Molecular entre 1973 e 1978.

    Conceituada em sua área de atuação, sobretudo por suas pesquisas em peixe-elétrico, ela foi bolsista 1-A do CNPq de 1976 até a aposentadoria (1994). Membro associado da Academia Brasileira de Ciências em 1960, e membro titular em 1992, foi condecorada com a Ordem Nacional do Mérito Científico, no grau Comendador, em 2000. 

    Participou das atividades da Sociedade Brasileira de Biofísica (SBBf) a partir de 1976, tendo sido membro do Conselho Consultivo em diferentes períodos e presidente entre 1992 a 1994. Nesse período participou também da diretoria da Federação das Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE).

    Sócia emérita da Associação Brasileira de Química (1981), e presidente da Sociedade Brasileira de Biofísica (1992-1994), Aída foi membro de várias associações científicas nacionais - Associação Brasileira de Quimica, Sociedade Brasileira de Bioquimica, Sociedade Brasileira de Neurociência –, e estrangeiras - Biophysical Society, American Chemical Society, Societé Française de Biochimie et Biologie Moleculaire, American Association for the Advancement of Science, New York Academy of Science.

    Em sua homenagem, em 1999, seu nome foi atribuído ao laboratório de físico-química biológica. Aída Hassón-Voloch faleceu em 2007.

    Obras/Publicações:

    - Hassón-Voloch, A; Gonçalves, J.M. Análise Cromatográfica dos Ácidos Aminados da Crotoxina. Ciência e Cultura — SBPC. Brasil, São Paulo, vol.2, nº 1, 1950, pp.54-56

    -Chagas, C., Sollero, L. and Hassón-Voloch, A. Etude par analyse Chromatro Graphique de L´elimination des stimulants du systeme nerveaux. Paris : Sedex Editeur. Hommenage au Doyen R. Fabre, 1956

    -Hassón-Voloch, A. and Liepin, L. L. Reversible inhibition of electric organ cholinesterase by curare and curare-like agents. Biochimica et Biophysica Acta. vol. 75 , 1963, p. 397 - 401 

    -Hasson-Voloch, A. Curare and acetylcholine receptor substance. Nature. vol. 218 , 1968, p. 330 - 333 

    -Somlò, C., de Souza Machado, R. D. and Hassón-Voloch, A. Biochemical and cytochemical localization of ATPases on the membranes of the electrocyte of Electrophorus electricus (L.). Cell and Tissue Research. vol. 202 , 1977 , p. 175 - 282 

    -Quintana, E. G. , Somlò, S. and Hassón-Voloch, A. Modification of electrocyte membrane lipid composition induced by denervation. Brazilian Journal of Medical and Biological Research. vol. 21 , 1988 , p. 1163 - 1171 

    -Hassón-Voloch, A. Denervation alters protein-lipid interactions in membrane fraction from electrocytes ofElectrophorus electricus (L). Biophysical Chemistry. vol. 91 , 2001 , p. 93 - 104 

     

    Fontes

    Azevedo, N. ; Cortes, B. A.Ferreira,, L.O.; Sa, M.  Gênero e ciência: a carreira científica de Aída Hassón-Voloch. Cad. Pagu [online]. 2004, n.23, pp. 355-387.

    Aída Hassón-Voloch. Verbete biográfico. Disponível em: http://www.abc.org.br/~aida. Acesso 18/12/2013

    Laboratório de Físico-Química Biológica Aída Hassón-Voloch. Instituto de Biofísica. Disponível em: http://www.biof.ufrj.br/pesquisa/fisiobiof/lfqb/. Acesso 18/12/2013

     

    Autoria:

    Nara Azevedo é doutora em Sociologia, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências /Casa de Oswaldo Cruz-Fiocruz.


BELLA (KARACUCHANSKY) JOZEF (1926 - 2010)

  • Nasceu em 29 de janeiro de 1926 na cidade do Rio de Janeiro, Distrito Federal. Em 1945 formou-se em Letras Neolatinas pela Universidade do Brasil, e logo se tornou Assistente de Manuel Bandeira, na Cátedra de Literaturas Hispano-americanas da Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1956, quando o poeta modernista se aposentou, Bella Jozef assumiu a responsabilidade pelo ensino de literatura-hispano-americana.  Nesse mesmo ano se doutorou em Literatura Americana com a tese “María, de Jorge Isaacs e o romance hispano-americano”. Em 1957 obteve o título de Livre-docente. Dedicou toda a sua vida a difundir a literatura hispano-americana em diversas esferas. Intelectual incansável, atuou em várias frentes, sempre fiel a seu compromisso latino-americanista e ao princípio de que “a função crítica é social, essencialmente inconformista” (2005, p. 188), especialmente em nossas sociedades latino-americanas.

    Sua trajetória acadêmica se confunde com a da UFRJ. Dos noventa anos da instituição, criada em 1920, acompanhou por quase sete décadas o desenvolvimento da pesquisa e do saber científico, contribuindo de forma relevante para sua consolidação, como Coordenadora da Pós-graduação e membro do Conselho Editorial da Universidade, entre outras funções. No meio acadêmico, como docente e orientadora, formou muitas gerações de Mestres e Doutores, que se espalham hoje por todo o país, de Norte a Sul, dedicados ao ensino e à pesquisa em Literatura Hispano-americana.  Aprovada em Concurso para Professor Titular, foi responsável pela criação do Setor de Literaturas Hispano-americanas, cuja equipe coordenou por muitos anos. Era pesquisadora do CNPq e ao longo de décadas, à frente do SEPEHA, Seminário Permanente de Estudos Hispano-americanos, promoveu a vinda de escritores e intelectuais de toda a América Hispânica, em parceria com Embaixadas, Consulados e Casas de Cultura. Fundou a Cátedra Alfonso Reyes, de intercâmbio Brasil-México. Ao completar 70 anos, em 1996, recebeu o título de Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    Em 1988 fundou a revista América Hispânica, periódico onde circularam artigos dos mais importantes intelectuais da América Latina, por dezessete anos. Em seu Conselho Editorial contava com alguns dos maiores expoentes do Latino-americanismo, como Antonio Cornejo Polar, Julio Ortega, Ruben Vela, Moacyr Scliar e Paul Verdevoye. Espaço de discussão teórica e crítica literária, dedicou alguns de seus números a Jorge Luís Borges, Carlos Fuentes, Juan Carlos Onnetti; fez dossiês sobre literatura argentina, chilena e mexicana, entre outros. Foi também espaço importante de divulgação da produção científica de jovens mestres e doutores, sempre a partir do crivo da seleção rigorosa.

    Ultrapassando os muros da universidade e da vida acadêmica participou ativamente dos círculos intelectuais e de cultura. Dirigiu um programa cultural na Rádio Roquette Pinto, a primeira emissora de rádio do país, onde pôde receber expoentes da vida literária, como o equatoriano Jorge Carrera Andrade. Foi entrevistadora do projeto FINEP: “Os escritores: criador e criaturas”. Durante décadas publicou artigos e resenhas críticas em suplementos literários de diários de grande circulação, como Suplemento Literário do Minas Gerais, Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, Diário de Notícias, Estado de São Paulo e O Globo, entre outros. A partir de suas resenhas e textos críticos orientou o público leitor na transição da narrativa tradicional para a nova narrativa hispano-americana a partir dos anos cinquenta do século vinte, no fenômeno editorial que ficou conhecido como o “boom”. De García Márquez a Vargas Llosa, Ricardo Piglia a Manuel Scorza, acompanhou o périplo e os desafios da intelectualidade a partir dos anos sessenta, os longos debates sobre o papel do intelectual e formas possíveis de resistência ao autoritarismo. Desenvolveu instrumentos teóricos para a plena compreensão das novas técnicas narrativas, acompanhando as transformações na crítica e na historiografia literária nos séculos vinte e começos do vinte e um através de sua vasta produção bibliográfica, em livros e artigos científicos.

     Como tantos intelectuais latino-americanos, contribuiu para o intercâmbio e o diálogo cultural entre os países do continente. Em parceria com embaixadas e consulados, promoveu a vinda de escritores e estudiosos, fortaleceu laços, construiu pontes. Em parceria com o Consulado da Argentina, em especial com a escritora May Lorenzo Alcálá e Marcelo Fonrouge, trouxe ao Brasil as escritoras Alicia Steimberg e Marta Robles. Do México trouxe Beatriz Espejo. Seu lado feminista se explicitava nos estudos sobre erotismo e literatura, no acompanhamento da obra de Dinah Silveira de Queiroz, Clarice Lispector, Nélida Piñon, Rosario Castelhanos, Helena Parente Cunha.

    Transitou por diversos gêneros, aliando a produção à reflexão crítica. No volume Diálogos Oblíquos apresenta uma Teoria da entrevista, a partir da seleção de diálogos  que travou, no Brasil e no exterior, com expoentes das letras hispano-americanas. Dentre eles, Jorge Luís Borges e Ernesto Sábato, em Buenos Aires; Cabrera Infante, em Londres; José Donoso, em Nova Iorque. Recebeu Juan Rulfo, Carlos Fuentes e Vargas Llosa, no Rio de Janeiro. Frequentava as sessões de cinema na casa de Manuel Puig.

    A contrapartida também foi relevante: ao longo das décadas cruzou os céus do continente, difundindo a literatura brasileira junto aos hispano-americanos, através de cursos, conferências e livros; ajudando a revelar novos talentos literários, através dos Concursos de cujo jurado participava, como o da Casa de Las Américas.  Foi vice-presidente do Instituto Internacional de Literatura Ibero-americana.  Representou o Brasil, a convite do Ministério da Cultura, nas Feiras Internacionais do Livro de Guadalajara e de Bogotá. Como reconhecimento internacional por seu trabalho incansável na difusão da cultura e na integração latino-americana, foi condecorada com a Ordem de Maio do governo argentino; com a Ordem do Sol, do governo peruano, e com as Palmas Acadêmicas do governo francês.

    Sabia adequar suas exposições a qualquer tipo de público, tanto em espaços solenes como em despretensiosos cursos de extensão em sala de aula, despertando a curiosidade de jovens estudantes para a literatura de nossos países vizinhos, direcionando vocações, incentivando novos talentos, disseminando a paixão pela América Latina. Elegante e generosa, tinha sempre uma palavra de estímulo e encorajamento às novas gerações.

     Foi casada por mais de sessenta anos com George Josef e teve dois filhos. Faleceu em 10 de novembro de 2010, no bairro do Catete (Rio de Janeiro), onde morava com o marido, na véspera do lançamento de seu livro Escritos sobre García Marquez. Deixou inéditos livros inteiros, prólogos, epistolário, poemas e uma vastíssima e preciosa biblioteca que foi doada à Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    Prêmios e distinções: “Silvio Romero” e “Assis Chateaubriand” da Academia Brasileira de Letras (1978), “Ensaio Bibliográfico” da Organização dos Estados Americanos, Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte, “Personalidade Cultural do ano” da União Brasileira de Escritores (1982) e uma das “Dez mulheres do ano”, pelo Conselho Nacional de Mulheres. Era Membro efetivo fundador do Instituto Brasileiro-Peruano Marechal Ramon Castilla (1989). Condecorada com as Palmas Acadêmicas do Governo Francês (1995), com a Ordem de Mayo do Governo Argentino, e a Ordem do Sol, do governo peruano. Agraciada com o título de Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996) e com a Medalha Pedro Ernesto, da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Fundadora e diretora da Associação de Professores de Espanhol do Rio de Janeiro (APEERJ) por várias gestões, recebeu o título de Presidente de Honra, em 2008. 

    Escreveu as seguintes obras, dentre outras: Historia da Literatura Hispano-americana. 4. ed. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ/ Francisco Alves, 2005./ Historia de la literatura hispano-americana. 2. ed. Guadalajara, México, 2005;  A máscara e o enigma. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986; Diálogos oblíquos: 34 escritores falam de literatura latino-americana. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1999; Romance Hispano-americano. Rio de Janeiro: Ática, 1986; O espaço reconquistado: uma releitura. 2. ed.. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1993 / El espacio reconquistado. Valladolid: Universitas Castellae, 1999; Temas Hispano-americanos (1969); Antologia de Poesia argentina (1940-1969), Iluminuras, 1990; Antologia General de la Literatura Brasileña, México, Fondo de Cultura Económica, 1995; Escritos sobre Gabriel García Márquez (organização), Rio de Janeiro: UFRJ, 2010 (Série Laboratório Latino-americano, 3).

     

    Fontes: HOLLANDA, Heloisa Buarque & ARAÚJO, Lucia Nascimento. Ensaístas Brasileiras. Mulheres que escreveram sobre literatura e artes de 1860 a 1991. Rio de Janeiro, Rocco, 1993;  UFRJ 90 ANOS (1920-2010). Rio de Janeiro: UFRJ, 2010. Edição comemorativa; LUNA, Cláudia. “Bella Jozef: paixão pela América Latina” in Versus, ano II, nº 6, Rio de Janeiro, junho de 2011, p. 110. Site www.bellajozef.com, acessado em novembro de 2013; Currículo Lattes, www.cnpq.br, acessado em  novembro de 2013; Revista América Hispânica. Rio de Janeiro: SEPEHA. 17 números.

    Autoria: Cláudia Luna

    Professora do Programa de Pós-graduação em Letras Neolatinas da UFRJ

    Pós-doutoranda do Programa de História da América da USP


Chana Malogolowkin-Cohen (1924 - )

  • Nasceu na cidade de Maria da Fé, Estado de Minas Gerais, em 13 de setembro de 1924. Filha de imigrantes russos judeus, foragidos do anti-semitismo e da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Foi registrada somente em 1925 pelos pais Frima Malogolowkin e Morduch Malogolowkin, que era um comerciante de tecidos em Minas Gerais. Estudou em casa até a idade de oito anos, até entrar para a única escola pública da cidade. Na década de 1930, fez o ginásio no colégio Hebreu Brasileiro na Tijuca, onde seu interesse por História Natural foi despertado. Inspirada por Louis Pasteur e Marie Curie, Malogolowkin já queria ser cientista e para isso entrou para o Colégio Universitário, onde foi fazer o curso complementar para tentar entrar em medicina na Faculdade Nacional, com o objetivo de trabalhar no Instituto de Manguinhos. Um ano depois o Colégio Universitário é fechado e ela é transferida para o Colégio Pedro II, onde faz o segundo ano do curso complementar. Em 1942, Malogolowkin fez o vestibular para medicina, mas logo em seguida abandona a idéia, mesmo aprovada, entrando para o curso de História Natural na recém fundada Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, localizada então na Avenida Presidente Antônio Carlos. Formou-se bacharel e depois licenciada em História Natural em 1946, mas já tinha passado a trabalhar com taxonomia e genética de drosófilas desde antes do final do 3º ano do curso. Ela havia sido indicada por Elysiário Távora para trabalhar no departamento de biologia com Antônio Geraldo Lagden Cavalcanti, ambos professores seus na faculdade. Foram Oswaldo Frota-Pessoa e Helena Salles, seus futuros colegas, que incentivaram a jovem cientista a seguir carreira na biologia e na taxonomia e evolução de drosófilas na Faculdade Nacional de Filosofia. Em 1948, Malogolowkin foi para a antiga Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP trabalhar durante um ano com um grupo liderado por André Dreyfus e Theodosius Dobzhansky. Deste grupo fizeram parte também nomes como Antônio Rodrigues Cordeiro, Crodowaldo Pavan, Antônio Brito da Cunha, Newton Freire-Maia, Hans Burla e Martha Wedel. Nascia ali a famosa “escola Dreyfus – Dobzhansky” da genética brasileira, que viria a render muitos frutos, disseminando a pesquisa em genética no país. Depois desta experiência com os mestres Dobzhansky e Dreyfus, ela foi incentivada a fazer o doutorado, defendendo em 1951 a tese intitulada “A genitália no grupo willistoni (Díptera, Drosophilidae, Drosophila)”, que versava sobre a evolução dos órgãos genitais deste grupo de drosófilas. Com isso, Chana Malogolowkin foi a primeira mulher a se doutorar em História Natural no Brasil. Além disso, ela foi a primeira a utilizar os órgãos genitais dos drosofilídeos para classificar as espécies irmãs, o que não era prática comum na época.

    De 1950 a 1956, Chana Malogolowkin trabalhou como pesquisadora no Centro de Pesquisas de Genética da Faculdade Nacional de Filososfia, fazendo pesquisas com genética e evolução de drosófilas do gênero willistoni. Desta forma contribuiu substancialmente para a institucionalização desta ciência no Rio de Janeiro e no Brasil, tornando-se também uma referência internacional na taxonomia de drosófilas.

    Em 1956, Chana Malogolowkin foi chamada por Theodosius Dobzhansky para ir trabalhar em Columbia (EUA), financiada pela Fundação Rockefeller. Foi lá que ela fez uma de suas mais importantes descobertas: ela viu que existia uma linhagem de moscas que não geravam machos – o então chamado fator sex ratio, pois alterava a proporção sexual entre machos e fêmeas - e por isso estas linhagens poderiam ser usadas, por exemplo, em controle biológico de moscas. Foi lá que ela publicou os resultados desta pesquisa com D. F. Poulson em um artigo na Science intitulado “Infective Transfer of Maternally Inherited Abnormal Sex-Ratio in Drosophila willistoni”. Este foi o primeiro artigo de uma mulher brasileira publicado nesta revista e o segundo artigo de um cientista brasileiro a ser publicado na mesma, o que deve ser considerado um marco na ciência brasileira, tanto em relação a questões de gênero quanto em relação à própria ciência brasileira.

    Em 1957, Malogolowkin volta ao Brasil por um curto período, onde trabalha por seis meses no Centro de Pesquisas de Genética (CPGEn) e depois funda o Laboratório de Genética Bioquímica, também na Faculdade Nacional de Filosofia, onde ela continua seus estudos com a transferência citoplasmática do fator “sex-ratio” em D.willistoni. Descobriu-se algum tempo depois que era uma bactéria, a Wolbachia, que alterava as taxas sexuais nas drosófilas. Hoje esta mesma bactéria está sendo usada em diversas partes do mundo, como Austrália e Brasil, em um programa experimental para o controle do Aedes aegypti, tudo isso derivado diretamente do trabalho de Chana Malogolowkin com as drosófilas.

    Chana Malogolowkin voltou em 1958 para a Universidade de Columbia, EUA, trabalhando como full professor com Dobzhansky, ficando em seu departamento até 1964. Malogolowkin também assumiu em Columbia a cadeira de Dobzhansky, quando este se retirou para a Universidade Rockefeller, em 1962. Lá, ela publicou mais um artigo na Science intitulado “Races and Incipient Species in Drosophila paulistorum”, em abril de 1962, fazendo dela umas das poucas cientistas brasileiras a publicar duas vezes nesta revista.

    Depois de se casar em 1964, Chana Malogolowkin-Cohen foi para Israel a convite da Universidade Hebraica de Jerusalém, ficando lá por somente um ano. Devido às duras condições de trabalho, ela desiste de trabalhar em Jerusalém e acaba ficando sem emprego. Depois de um tempo sem conseguir trabalhar com genética, Chana Malogolowkin recebe um convite para trabalhar na Universidade de Haifa (Israel), em 1969. Lá, ela funda o Laboratório de Genética de Drosófila na universidade com o auxílio de Eviatar Nevo e da Fundação Rockefeller, depois fundando o atual Instituto de Evolução da Universidade de Haifa. No laboratório e no Instituto, Malogolowkin continuou fazendo o que sempre gostou: pesquisas em genética, excursões a campo, orientando alunos e ensinando. Ela se aposentou em 1979, porém ainda ia a Haifa quando era chamada, dando palestras e fazendo pequenas assessorias. Continuou publicando e foi também professora visitante na Alemanha, trabalhando com Diether Sperlich na Universidade de Tübingen, no início da década de 1980, sempre com evolução de drosófilas.

    Primeira doutora em História Natural em 1951, fundadora da Sociedade Brasileira de Genética em 1955 e a primeira mulher brasileira a publicar na Science, Chana Malogolowkin-Cohen é uma das cientistas mais importantes para a história da biologia e da genética em nosso país. Ela dedicou sua vida à pesquisa científica, ao ensino e à disseminação da ciência. Ela também teve um nível de atuação científica internacional que ajudou o país a se projetar no campo das ciências biológicas, contribuindo para a genética brasileira e para o país como um todo, e por isso deve ser lembrada e relembrada.

    Hoje Chana Malogolowkin vive feliz em Tel-Aviv, à beira da praia, pintando belas paisagens, com a sua filha, os seus netos e o seu legado.

    Fontes:

    • Malogolowkin, Chana. Comunicação pessoal.
    • OLIVEIRA, M.E.G.C. de. O Centro de Pesquisa de Genética da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil: fundação e atuação na genética Brasileira entre 1950-68. In: 13º Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia, 2012, São Paulo. 13º Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia: anais. São Paulo: Escola de Artes, Ciências e Humanidades/USP, 2012. v. 13.
    • MARCOLIN, N. Chana Malogolowkin: Pesquisadora itinerante. Revista FAPESP, Edição 81 - Novembro de 2002.

     

    Autoria: Miguel E.G.C. de Oliveira

    Doutorando em História das Ciências e da Saúde do PPGHCS/COC/FIOCRUZ

    Mestre em Genética pela UFRJ


Danuncia Urban (1933 - )

  • Danuncia Urban nasceu em Curitiba, Paraná, em 13 de maio de 1933, filha dos imigrantes poloneses Felix Urban e Maria Victoria Dolinski. Dos seus 80 anos de vida, 60 foram dedicados à Biologia, em especial a Entomologia, o estudo dos insetos. Como cientista, foi uma das primeiras brasileiras na área de Zoologia, tornando-se uma grande taxonomista tanto pela quantidade de novas espécies descritas, quanto pela qualidade dos seus trabalhos.

    Desde o início do curso de História Natural na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 1951, Danuncia demonstrou interesse pela Zoologia. Como excelente aluna, chamou a atenção do Professor Padre Jesus Santiago Moure (1912-2010), que a convidou para desenvolver um estudo sobre aves nativas do Paraná, com apoio do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico (CNPq). Em conjunto com duas colegas, entre 1953 e 1959, ela se dedicou a taxonomia de falcões e pombas do Paraná, que foi seu primeiro contato com a pesquisa taxonômica.

    Em 1954, Danuncia Urban foi contratada como laboratorista no Departamento de Zoologia da UFPR e, ao mesmo tempo, passou a dedicar-se à pesquisa com as abelhas, sob a orientação de Moure. Na década de 1960 ela publicou seus primeiros trabalhos, tornando-se professora da UFPR em 1965. Ela participou na criação dos cursos de Pós-Graduação em Entomologia e Zoologia, na UFPR, nos anos de 1969 e 1974, respectivamente. Em 1995, foi reconhecida como Doutor Honoris Causa pela UFPR.

    Sua carreira como Entomóloga, especialista no estudo dos insetos, foi voltada principalmente para a taxonomia de abelhas, através da classificação, reconhecimento e nomeação das espécies. Danuncia está entre os três maiores taxonomistas contemporâneos dedicados ao estudo das abelhas em número de novas espécies descobertas: ela descreveu mais de 20 novos gêneros e de 300 novas espécies. Sua contribuição ao conhecimento da biodiversidade do Brasil e das Américas, tornou-a a maior pesquisadora nesta área.

    Danuncia Urban publicou mais de 100 artigos científicos, 11 capítulos de livros, além de ter organizado o “Catálogo das Abelhas na Região Neotropical”, uma referência para o assunto na atualidade. Foi agraciada com o Diploma de Honra ao Mérito, em 2004, e com o Prêmio Alexandre Rodrigues Ferreira, em 2010, ambos da Sociedade Brasileira de Zoologia, em reconhecimento ao trabalho prestado por ela na área. Um livro em sua homenagem foi organizado por pesquisadores da UnB, UFPR e USP, e será publicado pela editora da UFPR em 2014. Contendo mais de vinte artigos de cientistas brasileiros e estrangeiros, com novas descobertas no estudo das abelhas, o livro inclui a descoberta de novas espécies, nomeadas em sua homenagem.

    Danuncia dedicou sua vida à pesquisa, contrapondo-se às normas sociais de seu tempo. Danuncia aposentou-se como professora em 1991, mas ainda trabalha de segunda à sexta-feira na universidade. Sua alegria e simpatia, e seu comprometimento com a pesquisa são características marcantes.

    Fontes

    Curriculum Lattes:

    http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4761394U1

    Martins, A.C; Santos, L.M. & Dal Molin, A. (no prelo). Danuncia Urban: a life devoted to Entomology. In:Aguiar, A.J.C.; Gonçalves, R.B. & Ramos, K.S.Ensaios sobre as abelhas da região Neotropical: Homenagem aos 80 anos Danuncia Urban. Editora UFPR.

    Moure, J.S.; Urban, D. & Melo, G.A.R. (orgs). 2007. Catalogue of Bees (Hymenoptera, Apoidea) in the Neotropical Region. Sociedade Brasileira de Entomologia, Curitiba, 1072 p.

    Autoria:  

    Aline Cristina Martins

    Formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Entomologia pela Universidade de Sao Paulo (USP). Atualmente é doutoranda em Entomologia pela UFPR. 

    Leandro Mattos Santos

    Formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre em Ciências Biológicas - Entomologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente é doutorando em Entomologia pela UFPR.  Descrição completa da pesquisadora... 


Elza Salvatori Berquó (1928 - )

  • Nasceu em 17 de outubro de 1928 em Guaxupé, Minas Gerais, de família tradicional de origem portuguesa, por parte de pai - veio para o Brasil com a corte portuguesa - e italiana, por parte de mãe.

    Professora Titular aposentada da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, hoje conduz importantes pesquisas em demografia no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – Cebrap, onde trabalha como  Coordenadora da Área de População e Sociedade, e no Núcleo de Estudos Populacionais – Nepo, na Unicamp, onde atua como Membro dos Conselhos Técnico Científico e Superior.

    A matemática a encantou já na infância. Formou-se em matemática e bioestatística, com mestrado na USP (1949) e doutorado na Columbia University (1959), Elza Berquó foi pioneira ao introduzir a demografia no meio acadêmico brasileiro e usar dados sobre a população para entender transformações no comportamento e na saúde dos brasileiros.

    A primeira contribuição à demografia brasileira se deu ao fundar o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip) na USP, em 1966, o primeiro do gênero no país e que formou a primeira geração de pesquisadores brasileiros em demografia. O AI-5 a afastou do Cedip e da universidade, aposentando-a compulsoriamente. Juntamente com outros importantes intelectuais, entre eles Paul Singer e Fernando Henrique Cardoso, fundou o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em 1969, que se tornou um centro de resistência intelectual no período da ditadura e onde desenvolveu a Pesquisa Nacional de Reprodução Humana iniciada no Cedip, em 1968. No Cebrap, a pesquisa foi ampliada, contando com a colaboração de outros pesquisadores como Juarez Lopes Brandão e Vilmar Faria, e se tornou referência em demografia na América Latina.

    Em 1982, fundou o Núcleo de Estudos Populacionais (Nepo) na Universidade de Campinas (Unicamp), nova referência nacional em demografia, tendo sido coordenadora entre 1982 e 1994.

    Sua participação em estudos populacionais no Brasil contribuiu para abrir novos enfoques e paradigmas na demografia. Tem realizado muitos projetos de pesquisa, alguns deles tratando de problemas de saúde pública, de grande atualidade e de não menor gravidade, como é o caso do HIV/AIDS.

    Entre as pesquisas que coordenou nos últimos anos destaca-se a "Pesquisa Nacional sobre Reprodução Humana", realizada com apoio do International Development Reserarch Centre (IDRC), o Population Council, e a FINEP, realizada em 1973-1978.

    "Estudo da Fecundidade dos Estados Brasileiros em 1970", realizada em 1974-1975, e o "Estudo Multicêntrico da Morbi-Mortalidade Feminina no Brasil", realizado em 1995-1999, ambas com apoio da Fundação Ford do Brasil, "Saúde Reprodutiva da Mulher Negra", realizada em 1991-1993, e o "Programa para Formação de Pesquisadoras Negras", realizado em1994-1996, patrocinados pela Fundação MacArthur, "Comportamento sexual da população brasileira e percepções do HIV/Aids", edições de 1998 e 2005, e a "Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher, PNDS 2006", que contaram com o apoio do Ministério da Saúde.

    Nos últimos anos, apresentou grande número de palestras e conferências científicas no Brasil e no exterior. Possui inúmeras publicações, entre livros e artigos, nas áreas de saúde reprodutiva, gênero, sexualidade e juventude. 

    Presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento, CNPD, de 1995 a 2002. Membro das Comissões Consultivas dos Censos Demográficos dos Anos 1991, 2000 e 2010, da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE. Membro Fundador da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, ABEP, 1977. Membro da International Union for the Scientific Study of Population, IUSSP, do Population Association of Americas, PAA e da Associación Latinoamericana de Población, ALAP.

    Membro da Ordem do Mérito Científico Classe Grã-Cruz, 1998, e Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências, 2000. Em 2013 , recebeu o Título de Pesquisador Emérito do CNPq.

     

    Fontes:

    Entrevista à Ciência Hoje julho de 2013

    http://www.abep.org.br/sites/default/files/perfil305_0.pdf

    Currículo Lattes - CNPq

    Academia Brasileira de Ciências

     

    Autoria: Isabel Tavares

    Doutora em Sociologia pela UnB e analista em Ciência e Tecnologia do CNPq e Comunicação Social/CNPq


Glaci Teresinha Zancan (1934- 2007)

  • Nasceu na cidade de São Borja, Rio Grande do Sul, em 16 de agosto de 1934, filha de Fernando e Maria Zancan, filhos de imigrantes italianos. Cursou o primário na Escola Normal Sagrado Coração de Jesus (1941 a 1946) em São Borja e o secundário no Colégio Americano em Porto Alegre (1947-50). Formou-se em Farmácia-Química em 1956 pela Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutorou-se em Química Biológica pela UFRGS com a tese “Permeabilidade de Candida albicans aos ácidos orgânicos do ciclo de Krebs”, orientada por Metry Bacila (1959). Realizou estágios pós-doutorais no Instituto de Investigaciones Bioquímicas, Fundación Campomar, Buenos Aires, Argentina, (1962/63 e 1964), sob a supervisão de Luís Federico Leloir, Prêmio Nobel de Química (1970) e no Laboratoire de Chimie Physiologique, Universidade Católica de Louvain, Bélgica com Henri-Gery Hers  (1964 a 1965). Foi professora titular do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade Federal do Paraná. Recebeu o título de Professora Emérita Universidade Federal do Paraná em 31 de maio de 2006.

    Dedicou sua vida ao ensino, pesquisa e política científica. Lecionou Bioquímica para mais de 10.000 alunos do Curso de Farmácia e Bioquímica da UFPR. Publicou 42 trabalhos originais de pesquisa na área de Bioquímica de Microrganismos, especialmente de fungos, em periódicos nacionais e internacionais. Dedicou-se ao estudo da estrutura e função da galactose oxidase e caracterização taxonômica do fungo produtor desta enzimaCladobotryum dendroides. Orientou 25 mestres e doutores. Coordenou o Programa de Pós-graduação em Bioquímica da UFPR por 11 anos. Foi Bolsista  de Produtividade Científica 1A do CNPq.

    Atuou intensamente na política científica nacional pela melhoria da capacitação de recursos humanos, valorização do mérito como fundamental para o desenvolvimento científico, tecnológico e social do país, por uma política científica nacional planejada, contínua, de longo prazo e alcance. Publicou 74 artigos sobre Ciência e Tecnologia em jornais como Folha de São Paulo e Jornal da Ciência e 24 sobre Políticas Públicas em Livros e periódicos especializados. Proferiu 136 palestras em Congressos, Simpósios e Reuniões Nacionais e Internacionais. Foi conselheira por três décadas (1971-2003)  e presidente da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (SBBq 1975/76 e 1985/86). Foi secretária, conselheira, vice-presidente e  duas vezes presidente eleita (1999 a 2003) da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência  (SBPC).Participou de inúmeros comitês no CNPq, CAPES, MCTI, SETI-PR e foi Diretora do Centro Brasileiro-Argentino de Biotecnologia .

    Recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Científico do Governo Federal, a Medalha do Mérito Educativo do Conselho Federal de Farmácia e a Ordem do Mérito Educativo como Oficial do Governo Federal. Glaci faleceu em 29 de junho de 2007 em Florianópolis, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

     

    Autoria: Fábio de Oliveira Pedrosa

    Professor Titular Sênior do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade Federal do Paraná.

    Para informações adicionais veja Lima, Myrian Del Vecchio . Memória da Bioquímica no Paraná: a criação de uma escola de pesquisa. 1. ed. Curitiba: Editora da UFPR, 2012. v. 500. 351p .


LEDA DAU (1924 - 2011)

  • Leda Dau nasceu em 1924 em Juiz de Fora, Minas Gerais. A família de origem libanesa imigrou para o Brasil no início do século XX em busca de novas oportunidades de vida e de trabalho.  O grupo familiar, composto por avós maternos e paternos e os pais ainda bem jovens, se estabeleceu inicialmente em Santana do Deserto, situada perto de Juiz de Fora, e onde já havia uma comunidade de libaneses, deslocando-se logo depois para Ubá, e em seguida para Juiz de Fora. Tempos depois, Leda, com cerca de 4 anos, a mais nova dentre três irmãos, e o restante da família foram residir em Realengo, um subúrbio do Rio de Janeiro, onde seu pai se instalou como comerciante varejista. 

    Leda cursou o primário numa escola pública no bairro onde residia, ingressou no Ginásio Arte e Instrução, em Cascadura, uma escola particular, e fez científico no Colégio Pedro II, no centro do Rio. Ali, tomou gosto pelas ciências, o que a levou, em 1949, ao curso de História Natural da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), da Universidade do Brasil, onde diplomou-se licenciada e bacharel em 1953.

    Apesar de ter feito seu primeiro estágio na Ilha do Pinheiro, no Instituto Oswaldo Cruz, sob a orientação de Lejeune de Oliveira, sua trajetória profissional foi construída e consolidada no Museu Nacional, instituição em que realizou uma longa e bem sucedida carreira profissional, que culminou com sua ascensão, em 1986, à direção dessa instituição centenária. Antes dela, somente uma outra mulher havia ocupado esse cargo - a antropóloga Heloisa Alberto Torres, entre 1938 e 1955.

    A jovem estudante ingressou no Museu, em 1951, como estagiária não remunerada no Serviço de Ecologia, recém-instituído por Fernando Segadas-Vianna, pesquisador da Divisão de Botânica, que inaugurava então uma linha de trabalho original, dedicada ao estudo da ecologia vegetal. Integrado à Divisão de Botânica em 1956, o Serviço também previa o treinamento e a formação de ecologistas. Leda iniciou o estágio aprendendo a lidar com o herbário, e a identificar plantas com o microscópio. Em seguida, ela e outros jovens estudantes foram recrutados para atuar em um projeto de pesquisa graças ao financiamento e a bolsas concedidos pelo CNPq. Essa investigação, intitulada Levantamento Ecológico da Vegetação dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, tinha como alvo a então inexplorada planície costeira de Cabo Frio, considerada propícia para estudos mesológicos e de vegetação relacionados à região de restinga.

    Após a finalização desse projeto, Leda mudaria seus interesses de pesquisa, substituindo o estudo de microclimas pelo estudo de sementes, especificamente as cactáceas de restinga, tema que desenvolveria sob a orientação de Luiz Gouvêa Laboriau, biólogo reconhecido internacionalmente pela expertise em germinação de sementes. Foi em seu laboratório no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UNB), equipado com câmaras de germinação de que o Museu não dispunha, que Leda realizou suas primeiras experiências com as cactáceas. 

    Em 1957, ela prestou concurso para o cargo de naturalista-auxiliar interino, sendo efetivada na função dois anos depois. Em 1960 foi promovida à botânica do quadro permanente do Ministério da Educação e Cultura, e em 1968, por ocasião da Reforma Universitária, passou para o cargo de professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    Leda iniciou sua atividade como docente em 1967, atuando no Museu Nacional, no curso de aperfeiçoamento do Departamento de Botânica, e na pós-graduação em botânica, que coordenou entre 1983 e 1985; foi professora visitante no Laboratório de Fisiologia Vegetal do Instituto de Ciências Biológicas/UNB, a convite do Luiz Gouvêa Labouriau (1972-1973), e ministrou a disciplina  ¿Ecologia e Germinação de Sementes¿, entre 1973 e 1978, na Universidade Federal do Rio de Janeiro no curso de biologia.

    Às atividades de pesquisa e docência, Leda somou a de administração científica, iniciada com a chefia do Laboratório de Botânica (1962-1969), e seguida pela chefia da Divisão de Botânica, que assumiu em 1969 e em que permaneceu até 1976, quando foi indicada pela Congregação do Museu para ocupar o cargo de vice-diretora. Entre 1980 e 1982, assumiu o cargo de diretora pro tempore, e em 1986, concorreu à direção da instituição, sendo a mais votada de uma lista tríplice. O mandato se encerrou em 1989, e em 1994, aposentou-se.

    Membro do Conselho de Pesquisas da UFRJ (1964-1970), Leda era filiada à Sociedade Botânica do Brasil, e a Sociedade Brasileira de Agronomia, além de ser membro da Sociedade dos Amigos do Museu Nacional e da Fundação Brasileira para Conservação da Natureza. Ela faleceu em 2011.

    Publicações

    Dau, Leda. Microclimas das restingas do Sudeste do Brasil, 1: restinga interna de Cabo Frio. Archivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro, v.50. 1960.

    Segadas-Vianna, Fernando; Ormond, Wilma; Dau, Leda (Ed.). Flora ecológica de restingas do Sudeste do Brasil. 23 v. Rio de Janeiro: Museu Nacional. 1965-1978.

    Dau, L.; Salles, Heliane G.  Bibliografia brasileira sobre sementes, I. Rio de Janeiro, [s.n.], 1981. Brasil, Museu Nacional, Boletim.

    Fontes:

    Azevedo, N. ; Cortes, B. A. Sa, M. R. . Um caminho para a ciência: a trajetória da botânica Leda Dau. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 15, p. 209-229, 2008; .

    Autoria: Nara Azevedo

    Doutora em Sociologia, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências /Casa de Oswaldo Cruz-Fiocruz.


Lucia Piave Tosi (1917 - 2007)

  • Nasceu em Buenos Aires, Argentina em 20 de dezembro de 1917. Graduou-se em Química pela Faculdade de Ciências Exatas, Físicas e Naturais da Universidade de Buenos Aires e nesta instituição obteve o grau de Doutora em Eletroquímica em 1945. Estava casada desde 1939, com Heberto Alfonso Puente, professor de química desta mesma Universidade. Desta união nasceu seu primeiro filho, Juan Cristobal Puente (1946). Seu desempenho acadêmico propiciou que nos anos de 1947 e 1948 tenha sido contemplada com uma bolsa de estudos do governo francês para estagiar no Laboratório de Eletroquímica da Universidade da Sorbonne em Paris. Esta ida para a França mudou sua vida familiar, casou-se em 1948, com cientista social brasileiro Celso Monteiro Furtado (1920-2004), que naqueles anos fazia seu doutoramento em Economia na Universidade da Sorbonne. Desta união nasceram seus filhos: Mario Tosi Furtado (1949) e André Tosi Furtado (1954).

    Casada com Celso Furtado vem ao Brasil no início dos anos 1950, trabalha no Laboratório de Química do Departamento de Produção Mineral no Rio de Janeiro e foi professora visitante da Faculdade de Química e Farmácia da Universidade do Chile, em Santiago. No ano de 1952 publica no Chile o livro “El Metodo Polarográfico de Analisis”. E com a vinda de Celso Furtado para o Brasil em 1954 vai trabalhar no Instituto Nacional de Tecnologia, no Rio de Janeiro.

    Sua energia intelectual é testada pelas diversas mudanças empreendidas pelo casal nas quais ela não dependeu dele em nenhum momento e firmou-se no mundo acadêmico como muito vigor. Assim, esteve na Universidade de Cambridge, Inglaterra em 1958 e em 1959 estava lecionando na Universidade Federal de Pernambuco, em Recife. E entre 1960 e 1964 foi pesquisadora do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro. Exilou-se com Celso Furtado em 1964, depois de uma passagem pelos Estados Unidos fazendo um pós-doutoramento no Sterling Chemistry Laboratory da Universidade de Yale, instalou-se em Paris em 1966. Nessa cidade viveu até 1983. Nesses quase vinte anos foi pesquisadora do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) na Universidade Paris VI. Aposentou-se dessa universidade em 1983.

    Na sua estadia na França, Lucia viveu a explosão do movimento feminista depois de maio de 1968 e junto com mulheres exiladas das ditaduras latino-americanas criaram o Grupo Latino-Americano de Mulheres em Paris e Lucia abraçou com fervor a luta das mulheres pela construção da igualdade. Sua sólida formação científica e o interesse pelos estudos sobre a participação das mulheres na Ciência fizeram com que ela se tornasse uma significativa pesquisadora deste campo disciplinar, além da pesquisa na área da Química.

    Assim, a química renomada Lucia Tosi volta ao Brasil e entre 1984 e 1988 foi professora visitante do departamento de Química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em 1989 volta a Paris, mas manteve a cooperação científica com a UFMG, onde passava três meses por ano, trabalhando no Departamento de Química dessa universidade. Lucia Tosi deixou uma importante contribuição à estrutura de moléculas e espectroscopia de raios gama, nas áreas de Espectroscopia e de Química Biorgânica e trabalhos pioneiros em História das Ciências, sobretudo sobre o papel da mulher na ciência. Teve, assim, uma intensa vida acadêmica nessas áreas de estudos como na História da Ciência, além de uma vibrante atuação política feminista.

    Faleceu em Campinas/SP, no dia 25 de fevereiro de 2007.
     
    Algumas Obras:

    TOSI, L., El método polagráfico de analisis, Ed. Universitaria, Santiago de Chile, 1952;

    TOSI, L., Danon, J., Infrared Spectral Evidence of *-Bonding  in the Fe(CN)5NO-2 Ion. Inorganic Chemistry1964, 3, 159. [CrossRef]  antes de bonding é a letra grega Pi

    TOSI, L., Spectre infrarouge et Raman d´un monocristal de nitroprussiate de sodium. Specrrochimica Acta Part A: Molecular Spectroscopy1970, 26, 1675. [CrossRef}

    TOSI, L., Garnier, A, Formation and structure of Cu (II) – poly (L-arginine) complexes in aqueous solution. Biochemical and Biophysical Research Communications, 1974, 8, 427. [CrossRef]

    HERVÉ, M.; GANIER, A.; TOSI, L.; Steinbuch, M. The effects of neutral salts on the conformational transition of ceruloplasmin. Biochimica et Biophysica Acta (BBA) - Protein Structure 1975, 405, 318. [CrossRef] [PubMed]

    HERVÉ M.; GARNIER, A.; TOSI, L.; STEINBUCH, M. Spectroscopic and Photoreduction Studies of Copper Chromophores in Ceruloplasmin. European Journal of Biochemistry 1981, 116, 177. [CrossRef]

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    BERALDO, H.; TOSI, L. Spectroscopic studies of metal complexes containing π-delocalized sulfur ligands. The pre-resonance Raman spectra of the antitumor agent 2- formylpyridine hiosemicarbazone and its Cu(II) and Zn(II) complexes. Inorganica Chimica Acta 1986, 125, 173. [CrossRef]

    TOSI, L.; SANTOS, A. P., Ciência, Tecnologia e Gênero: Desvelando o Feminino na Construção do Conhecimento, em SANTOS, Lucy Woellner dos; ICHIKAWA, Elisa Yoshie e CARGANO, Doralice de Fátima. (orgs.) Ciência, Tecnologia e Gênero. Curitiba-PR,IAPAR, 2006. TOSI, L. Mulher e Ciência: a revolução científica, a caça às bruxas e a ciência moderna. Cadernos Pagu 1998, 10, 369.

    TOSI, L. La chymie charitable et facile, en faveur des dames, de marie meurdrac, une chimiste du XVIIe siècle. Comptes Rendus de l’ Académie des Sciences, série II, Fascicule Chimie 1999, 2, 531. [CrossRef].

    TOSI, L. Marie Meurdrac: Paracelsian chemist and feminist. Ambix 2001, 48, 69.

    FONTES: Beraldo, Heloisa, Lucia Tosi: Cientista, Historiadora da Ciência e Feminista, Revista Virtual de Química, 2014, X (X), no prelo. Data da Publicação na Web em 8 de dezembro de 2013, acesso em 20 de dezembro de 2013. Revista Gênero, Obituário, primeiro volume de 2007. Jornal da Ciência, SBPC, 27 de fevereiro de 2007.

    Autoria: Hildete Pereira de Melo

    Doutora em Economia, Professora Associada da Universidade Federal Fluminense, editora da revista Gênero, pesquisadora da área de Relações de Gênero, História da Ciência, Feminismos, Economia Brasileira.


Mariana Alvim (1909-2001)

  • Nascida no Rio de Janeiro, filha de Álvaro Alvim (médico responsável pela introdução da radiologia no Brasil) e neta de Angelo Agostini (o cartunista brasileiro de maior destaque durante o período imperial, no século XIX), Mariana de Agostini Vilalba Alvim realizou sua formação em Psicologia na Sorbonne/Paris, estudando com Henri Wallon,cuja influência formativa sobre Mariana se fez sentir também na adesão desta ao marxismo (Marwell, 1999). De volta ao Brasil, durante a ditadura varguista, Mariana se gradua também na Faculdade de Serviço Social do Rio de Janeiro.

    Mariana Alvim se destaca no processo de autonomização não apenas da Psicologia, como também do Serviço Social ¿ evidenciando uma característica deste período: certa indiferenciação de fronteiras entre profissões emergentes. Outra característica frequente entre tais profissionais é a inserção no serviço público. Mariana Alvim atuou no Serviço de Assistência ao Menor (SAM), órgão criado em 1941 pelo Ministério de Justiça e Negócios Interiores, no Rio de Janeiro, voltado à organização da assistência, tratamento e correção dos menores infratores (Jacó-Vilela e cols., 2012). A atuação em Psicologia no SAM era eminentemente psicométrica, isto é, avaliação do perfil do jovem delinquente, através de testes de inteligência e personalidade. Paralelamente, o Serviço Social era responsável pela investigação social do ambiente social, familiar e escolar da criança/jovem. Possivelmente, a dupla formação de Mariana levou-a a transitar entre estas duas áreas de atuação no SAM.

    Ainda na década de 1940, Mariana Alvim tem a oportunidade ¿ através de bolsa de estudos ofertada pelo Departamento de Administração do Serviço Público (DASP) ¿ de fazer aperfeiçoamento em Assistência à Infância nos EUA. Nesta viagem, Mariana realiza treinamentos com Carl Rogers em Chicago, sendo considerada a primeira brasileira a ter contato e trazer ao Brasil as técnicas da terapia não-diretiva (Campos, 2005).

    De volta ao país, participa de curso oferecido pelo DASP sobre Orientação e Seleção Profissional, com o psiquiatra espanhol Emílio Mira y López, em 1946. No ano seguinte, Mira y López convida sete alunos deste curso (Mariana, dentre eles) para trabalhar no Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP) da Fundação Getúlio Vargas (Souza & Cunha, 2001). O ISOP se notabilizou como um grande centro de formação profissional e divulgação da psicologia aplicada no Brasil. Mariana Alvim atuou com seleção, orientação profissional, além de "orientação vital": uma modalidade de orientação psicológica voltada fundamentalmente para crianças e jovens (e suas famílias), dotada de um caráter fortemente pedagógico (Degani-Carneiro e Jacó-Vilela, 2012).

    Neste período, havia intensos embates em torno do exercício da psicoterapia (especialmente, a de adultos), com fortes pressões da classe médica no sentido de defini-la como função privativa da Medicina. Entretanto, o cuidado terapêutico de crianças e jovens (a orientação vital) era destinado à "infante" Psicologia (Degani-Carneiro, 2010). A teoria rogeriana foi de fundamental importância neste processo como uma alternativa teórica que subsidiava a prática terapêutica destes psicólogos pioneiros, pois a formação em psicanálise no Rio de Janeiro era restrita aos médicos.

    Ainda no Rio de Janeiro, Mariana Alvim foi psicóloga da Sociedade Pestalozzi e também chefiou o Serviço Social Psiquiátrico do Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil (IPUB).

    Com a fundação de Brasília em 1960, Mariana se transfere para a nova capital, trabalhando como chefe do Centro de Psicologia Aplicada da Prefeitura do Distrito Federal. Em 1962, a convite do reitor Darcy Ribeiro, criou o Serviço de Seleção e Orientação da Universidade de Brasília (UnB). Embora tenha coordenado a aplicação de testes psicológicos em mais de 1000 alunos para a seleção da primeira turma, além das primeiras seleções de servidores, não permaneceu na UnB, como muitos outros que participaram dos primeiros momentos desta Universidade.

    Alvim relata, em entrevista realizada em 1991 (conforme citada por Trzan-Ávila, 2013), sua admiração pelo psicólogo e filósofo marxista francês Henri Wallon (1879-1962)  que influenciou sua vida e prática profissional. Assim, o marxismo foi inspirador de reflexões, ideias, bem como de sua militância política. Esta, esteve presente principalmente pela resistência à ditadura, levando a nova direção da UnB a solicitar sua  saída da  instituição em 1965. 

    Alvim voltou então ao seu órgão de origem, o Ministério da Justiça, atuando no sistema penitenciário, realizando a avaliação psicológica dos apenados. Seus pareceres possibilitavam o indulto, a liberdade condicional ou, mesmo, a continuidade da situação dos mesmos. Na citada entrevista, Alvim afirma que este trabalho muito a afligia, mas  "bem que eu consegui libertar muitos", deixando claro sua defesa da liberdade e dos direitos humanos. Alvim permaneceu neste serviço até se aposentar, passando a se dedicar à clínica, cursos de formação e de  ensino de cursos de testes psicológicos, como PMK e Rorschach, e consultoria em orientação e seleção profissional até o início da década de 1990.

    Referências

    Campos, R. F. (2005). A Abordagem Centrada na Pessoa na história da psicologia no Brasil: da psicoterapia à educação, ampliando a clínica. Psicologia da Educação (São Paulo). 21, 11-31.

    Degani-Carneiro, F. (2010). A infante ciência e seus infantes: o cuidado com a infância e a autonomização da Psicologia no Brasil nas décadas de 1930-1960. Monografia de graduação em Psicologia. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

    Degani-Carneiro, F. & Jacó-Vilela, A. M. (2012). O cuidado com a infância e sua importância para a constituição da Psicologia no Brasil. Revista Interamericana de Psicologia. 46(1), 159-170.

    Jacó-Vilela, A. M., Mello, D. S., Gonzaga, A. F., Barbosa, C. F., Santos, D. F., Ferreira, L. S. S., Messias, M. C. N., Lucas, W. S. J. (2009). LBI, SOHM e SOP: desvãos da história da psicologia brasileira. In Associação Brasileira de Psicologia Social (Org.), Anais de Trabalhos Completos do 15º Encontro Nacional da Associação Brasileira de Psicologia Social. Rio de Janeiro.

    Marwell, J. (1999). Mariana Agostini de Villalba Alvim. Psicologia: Ciência e Profissão19(2), 73.

    Souza, J. M. S. & Cunha, R. N. (2001). Alvim, Mariana Agostini de Villalba. In Campos, R. H. F. (Org.), Dicionário Biográfico da Psicologia no Brasil. Rio de Janeiro/Brasília: Imago, CFP.

    Trzan-Ávila, A. (2013). Uma história da Abordagem Centrada na Pessoa no Brasil ¿ Rio de Janeiro e São Paulo (1950 - 1970). Dissertação de Mestrado. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

    Autoria:

    Ana Maria Jacó-Vilela é pesquisadora em história da psicologia no Brasil, coordenando o Núcleo Clio-Psyché, de pesquisas em  História da Psicologia;  bolsista de produtividade do CNPq, cientista do nosso estado da Faperj, Procientista da UERJ. Professora do curso de graduação e do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Uerj, que atualmente coordena. Membro da Mesa Diretora da Sociedade Interamericana de Psicologia. Coordenadora de Rede Iberoamericana de Pesquisadores em História da Psicologia.  

    Filipe Degani-Carneiro é doutorando em Psicologia Social pelo Programa de Psicologia Social da UERJ.

    Alexandre Trzan D'Avila é mestre em  Psicologia Social pelo Programa de Psicologia Social da UERJ.


Niede Guidon (1933 - )

  • Niede Guidon nasceu em Jaú (SP) em 12 de março de 1933. Filha de Ernesto Francisco Guidon e Cândida Viana de Oliveira Guidon, tem quatro irmãos.

    Em 1956, ingressa no curso de história natural da Universidade de São Paulo (USP) e conclui a graduação em 1959. Em seguida, faz uma especialização em Arqueologia Pré-histórica, na Université Paris-Sorbonne, em Paris (1961-1962). Entre 1971 e 1975, Guidon faz o doutorado em Pré-história na Université Paris 1 Pantheon-Sorbonne, cuja tese teve como título Les peintures rupestres de Varzea Grande, Piauí, Brésil  e como orientador o prof. André Leroi-Gourhan.

    Ainda em 1959 tornou-se professora  da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo durante um breve período, tendo em seguida ingressado na Universidade de São Paulo (1961), como arqueóloga do Museu Paulista. Em 1973, tornou-se pesquisadora da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), tendo exercido posteriormente outros cargos na Fundação e ocupa atualmente a posição de diretora presidente. Em 1977, entra para o corpo docente da Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), na França. Entre os anos 1970 e 1980, Niede Guidon foi também consultora e colaboradora da Unesco, tendo sido diretora científica da Missão Arqueólogica de Salto Grande, no Uruguai.

    Professora visitante na Universidade Federal do Piaui, na Universidade Estadual de Campinas e na Universidade Federal de Pernambuco, também coordenou grupos de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique.

    Na década de 1970, ao vir ao Brasil em missão apoiada pelo governo francês, Niéde Guidon inicia as pesquisas na Serra da Capivara, no Piauí. Em 1979, é criado o Parque Nacional da Serra da Capivara, depois declarado Patrimônio Cultural da Humanidade.

    Com apoio do CNPq e de várias universidades brasileiras, Guidon  investiga há mais de 40 anos a pré-história no Brasil e suas pesquisas são referências fundamentais na arqueologia.

    Segundo Guidon, as pesquisas indicam que o homem “chegou pela desembocadura do Rio Parnaíba, no norte do Piauí, vindo da África”, por volta de 130  mil anos atrás após uma grande seca.

    Preocupada com a preservação do sitio arqueológico de São Raimundo Nonato, que integra o Parque Nacional da Serra da Capivara, Guidon defende o turismo como fonte de recursos para a região.

    Prêmios e Títulos:

    2010 - Medalha comemorativa dos 60 anos, UNESCO.

    2005 - Ordem do Mérito Cientítico - Grã Cruz, Ministério de Ciência e Tecnologia.

    2005 - Prêmio Príncipe Claus, Governo da Holanda.

    2004 - Cientista de Ano, SBPC.

    2002 - Comendador da Ordem do Mérito Cultural, Ministério da Cultura.

    1995  - Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito, Governo Francês.

    Principais Obras/publicações:

    - SANTOS, G. ; BIRD, M. I. ; PARENTI, F.; L.K.FIFIELD, ; GUIDON, N. ; Hausladen, P.A. . A revised chronology of the lowest occupation layer of Pedra Furada Rock Shelter, Piauí, Brazil: the Pleistocene peopling of the Americas. Quaternary Science Reviews, v. 22, p. 2303-2310, 2003.

    - GUIDON, N. ; Lessa, A.. Osteobiographic Analyses of Skeleton I, Sitio Toca dos Coqueiros, Serra da Capivara National Park, Brazil 11,060 BP: First results. American Journal of Physical Anthropology, v. 118, p. 99-110, 2002.

    - GUIDON, N. ; PEYRE, E. ; GUERIN, C. ; COPPENS, Y. . Resultados da datação de dentes humanos da Toca do Garrincho, Piaui- Brasil. CLIO. Série Arqueológica (UFPE), Recife, v. 14, p. 75-86, 2000.

    GUIDON, N. ; PEYRE, E. ; GUERIN, C. ; COPPENS, Y. . Des restes humains pléistocenes dans la grotte du Garrincho, Piauí, Brésil. Earth Planetary Sciences, Paris, p. 355-360, 1998.

    - GUIDON, N. . Peintures préhistoriques du Brasil; L'art rupestre du Piauí. Paris: Editions Recherches sur les Civilisations, 1991. 109p.

    - GUIDON, N.; DELIBRIAS, G. . Carbon-14 dates point to man in the Americas 32.000 yaers ago. Nature (London), v. 321, n.6072, p. 769-771, 1986.

     

    Fontes:

    ·        Currículo Lattes, consultado em 13/01/2014.

    ·        Entrevista ao Correio Braziliense, publicada em 06/10/2013.

     

    Autoria: Maria Lúcia de Santana Braga

    Doutora em Sociologia e analista em ciência e tecnologia do CNPq.


Ottilia Rodrigues Affonso Mitidieri ( 1927 - )

  • Ottilia Rodrigues Affonso Mitidieri, filha de Joaquim Affonso e MariaRodrigues Affonso, nasceu no Rio de Janeiro em 29 de março de 1927.

    Fez os cursos primário e ginasial no Instituto Lafayette e o científico no Colégio Andrews. Desde muito cedo, sempre sentiu especial interesse pelas Ciências Químicas e Biológicas, além do real prazer ao estudar Matemática. Talvez por isso mantém vivas, na memória, as aulas de Matemática do prof. Luiz Paixão, do Instituto Lafayette, e do Prof. Miguel Ramalho Novo, do Colégio Andrews.

    Num período da história feminina no qual as jovens optavam pelo casamento ou pelo magistério, ela escolheu uma profissão pouco comum para uma mulher, a de ser química. O que, para alguns, foi motivo de estranhamento, para seu pai foi motivo de orgulho e um leve sabor do sonho que acalentara durante tanto tempo: o de ter tido um filho homem. Química Industrial e Engenharia Química eram profissões para homem!

    Naquela época como nos dias atuais, o vestibular era uma verdadeira batalha a ser vencida. Muitos tentavam e poucos conseguiam.  O mérito e a capacidade eram os fatores que determinavam a abertura das portas o futuro profissional de cada um. Como outros estudantes que aspiravam ingressar em uma faculdade, passou insone, noites e noites, estudando e consolidando os conhecimentos adquiridos. Mas chegou o dia da prova e com ele a vitória conquistada: Escola Nacional de Química (ENQ).

    Da ENQ guarda as mais queridas lembranças:  a excelência do curso e de seus Mestres, e o convívio fraterno que a caracterizavam. Até hoje, preserva na lembrança as aulas do prof. Mario Saraiva que exigia perfeição na montagem da aparelhagem de laboratório.

    Formatura! Momento de sentimentos contraditórios - a enorme alegria da conquista do título e a já sentida saudade dos queridos colegas - amigos – irmãos com os quais conviveu.

    E foi lá, na Escola Nacional de Química, que ela encontrou aquele que viria a ser marido e companheiro de sua vida, pai de seus três filhos, Ricardo José, Paulo Emilio e Fernanda Maria, e igualmente apaixonado pela pesquisa, Emilio Mitidieri. Juntos trabalharam e auferiram sucesso e renome.

    Ela conta que em 1953, quando dirigiu-se ao então Instituto Oswaldo Cruz (IOC), hoje unidade da Fiocruz, para inscrever-se em um curso de Bioquímica, foi dominada por forte emoção. Ao subir as escadas do castelo mourisco, viu-se entrando num templo sagrado e foi assim que se sentiu durante o tempo em que esteve no IOC - respeitando e admirando os grandes mestres que lá se dedicavam integralmente à Ciência. Ao término do curso, foi convidada pelo Dr. Gilberto G. Villela para trabalhar no IOC. Outra grande emoção surpreendente e inesperada.

    No laboratório de Bioquímica com Emilio Mitidieri, Luiz Paulo Ribeiro e Dr. Villela, deram início à linha de pesquisa com grande entusiasmo e determinação. Quando foi realizado o concurso para o IOC, inscreveu-se e foi aprovada.

    Ter vivenciado o período conhecido como “Massacre de Manguinhos” deixou-lhe amargas lembranças. Foram tempos difíceis, tristes e que não ficaram limitados àquele massacre. Como era difícil trabalhar!

    Mais tarde, mudanças administrativas ocorreram. O IOC passou a regime de CLT e os que trabalhavam como estatutários, não poderiam lá continuar. Sair do Instituto Oswaldo Cruz foi o momento mais difícil de sua vida profissional, traumático mesmo. Tendo que sair, aceitou o convite da direção do Instituto Nacional de Câncer que visava expandir e fortalecer o seu Centro de Pesquisa Básica. Lá reiniciou suas atividades.

    Sua linha de pesquisa visava o estudo de enzimas, especialmente da xantina oxidase e da superóxido dismutase. Da xantina oxidase, fez sua localização intracelular, estudou a ação de drogas, a importância dos fosfolipídeos para a sua atividade, seu comportamento em tumores induzidos quimicamente, sua relação com radicais livres e a superóxido dismutase.  Ottilia publicou cinco livros, entre os quais "Paper Electrophoresis - A Review of Methods and Results", editado por Elsevier Publ. Co., Amsterdam, 1961 e "Problemas e Exercícios em Bioquímica", Editora Interciência Ltda., Rio de Janeiro, 1978. Os resultados de seu trabalho foram publicados em dezenas de artigos, sendo seis deles na revista Nature e apresentados em congressos, simpósios e reuniões científicas.

    Embora não tenha exercido a atividade acadêmica, sempre se dedicou à orientação de estudantes, seja na iniciação científica seja no seu aperfeiçoamento, estimulando-os e orientando-os na elaboração de dissertações e teses. Quantos lhe são gratos!

    Após aposentadoria compulsória, passou a atuar no Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo De Meis da UFRJ como pesquisadora convidada, onde está até hoje. Sua dedicação voluntária, humildade, paciência e contribuição científica com os jovens de Iniciação Científica e Pós-graduandos é admirada por todos os estudantes que convivem com essa brilhante pesquisadora.

    Autoria:

    Verbete elaborado pela filha da pesquisadora Fernanda Maria Affonso Mitidieri Canelas,

    Fernanda Mitidieri é formada em Ciências Biológicas pela Universidade Santa Úrsula, com mestrado e doutorado pelo Departamento de Bioquímica Médica da UFRJ (atual Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis). Atualmente é professora de Bioquímica da Universidade Gama Filho.

    com a colaboração de :

    Vívian Rumjanek é professora titular do Instituto de Bioquímica Médica Prof. Leopoldo De Meis-  Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

    Flavio Eduardo Pinto da Silva é  Pós -Doutorando do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo De Meis- UFRJ

    Claudia Juberg é tecnologista da Fundação Oswaldo Cruz, jornalista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia. 


Sonia Dietrich (1935 - 2012)

  • Nasceu em São Paulo (SP) em 27 de janeiro de 1935 e é considerada uma das pioneiras no desenvolvimento da fisiologia e bioquímica de plantas. Formou-se em história natural na Universidade de São Paulo em 1957. Já em 1960 trabalhou no grupo do famoso bioquímico argentino Luis Federico Leoir, ganhador do Prêmio Nobel de 1970 pela descoberta do mecanismo principal da síntese de carboidratos em seres vivos. De 1964 a 1966 trabalhou na University of Wisconsin-Madison e de 1967 a 1969 realizou seu doutorado em bioquímica de alcaloides na University of Saskatchewan no Canada.

    Sonia Dietrich trabalhou por toda a carreira (1959 a 1992) e posteriormente como Professora Visitante (de 1992 até a sua morte em 2012) no Instituto de Botânica de São Paulo, onde consolidou a liderança da Seção de Fisiologia e Bioquímica de Plantas (hoje o Núcleo de Pesquisa em Fisiologia e Bioquímica).

    A sua liderança consolidou uma dos mais fortes grupos de pesquisa em carboidratos de plantas do Brasil e formou estudantes através dos programas de pós-graduação em Biologia Molecular da Universidade Federal de São Paulo (então Escola Paulista de Medicina), Botânica da USP e da UNICAMP, em todo o Brasil. Orientou 27 teses e dissertações ao longo de 37 anos de carreira, produzindo 102 trabalhos científicos. Já aposentada, Sonia Dietrich liderou a formação e foi a primeira coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Biodiversidade,  o primeiro do país. 

    Na Ciência, conduziu estudos pioneiros da busca de polissacarídeos (notadamente os polissacarídeos de parede celular e os frutanos) em plantas nativas do Brasil, descobrindo um grande número de novas espécies úteis e ao mesmo tempo ajudando a compreender a importância destes compostos na evolução biológica em plantas. As descobertas de Sonia Dietrich e seus alunos estão possibilitando hoje o desenvolvimento de aplicações de polissacarídeos de plantas brasileiras em biotecnologia. Ao mesmo tempo, deu início aos principais trabalhos que levaram ao estabelecimento de modelos biológicos de espécies nativas para os estudos fisiológicos e bioquímicos, ajudando a compreender vários dos mecanismos de estabelecimento de espécies brasileiras à Mata Atlântica e ao Cerrado. Neste sentido, a sua atuação científica pioneira abriu as portas para o conhecimento do funcionamento da biodiversidade brasileira o que contribuiu com os primeiros esforços de conservação da biodiversidade.

    Sonia Dietrich foi também uma das pesquisadoras pioneiras em estudos dos mecanismos de resposta de defesa de plantas, produzindo trabalhos fundamentais, como por exemplo nas respostas bioquímicas do cafeeiro à ferrugem, que tem reconhecimento internacional. Em muitas oportunidades, mesclou as duas linhas de pesquisa e produziu trabalhos em que estudou o papel dos polissacarídeos de parede celular nos mecanismos de defesa das plantas.

    Sonia Dietrich foi uma figura de grande importância no cenário científico nacional, participando ativamente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, do Conselho Deliberativo do CNPq e sendo membro da Academia Brasileira de Ciências. Nestes foros, Sonia Dietrich foi uma das pesquisadoras que ajudou a consolidar a estabilidade do financiamentos à pesquisa que o Brasil apresenta desde o início do século XXI.

    Sua atuação foi fundamental em São Paulo, onde foi presidente da Comissão Permanente de Tempo Integral (CPRTI) por vários anos e consolidando a carreira de Pesquisador Científico nos 18 Institutos de Pesquisa de São Paulo. O seu rigor e valorização da qualidade científica lhe valeu o apelido de Dama de Ferro, sendo temida e respeitada por sua inteligência sagaz e profundo senso crítico.

    Sonia Dietrich foi também um personagem fundamental para a Biologia no Brasil, pois foi Vice-presidente do Conselho Federal de Biologia e atou como um dos principais pesquisadores na luta para a regulamentação da carreira de biólogo em nosso país.

    No cenário internacional, foi fundadora da Rede Latinoamericana de Botânica (RLB) e membro da Rede Latinoamericana de Biologia, (RELAB) sendo uma das responsáveis por iniciar a integração científica na região através da consolidação de cursos e abrindo oportunidades para a troca de estudantes de pós-graduação entre os diferentes países da América Latina.

    A sua última contribuição foi como editora-chefe da Revista Brasileira de Botânica, tendo sido responsável pela transformação desta em Brazilian Journal of Botany (Springer), oficialmente registrado um dia antes de sua morte.

    Autoria: Marcos Silveira Buckeridge

    Professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Realiza pesquisas em fisiologia, bioquímica e biologia molecular de plantas com enfoques no funcionamento de árvores tropicais, respostas de plantas às mudanças climáticas globais e bioenergia.


Therezinha Lins de Albuquerque (1926 -)

  • Nascida em Recife, em 1926, Albuquerque teve seu primeiro contato com a Psicologia ainda na década de 1940, durante sua formação em Pedagogia, concluída em 1949, na primeira turma da Faculdade de Filosofia de Recife.  Entretanto, sua inserção efetiva na Psicologia ocorreu após de sua mudança para o Rio de Janeiro em 1951: naquela ocasião, Ulisses Lins de Albuquerque, seu pai, fora eleito deputado federal pelo estado de Pernambuco e a família o acompanhou na vinda para a então capital federal.

    Recém-graduada em Pedagogia, Albuquerque (2003) relata que estava decepcionada com a área da educação, julgando que esta não apresentava um dinamismo e um contato mais profundo com as questões humanas. Em 1952, já no Rio de Janeiro, foi apresentada a Elisa Dias Velloso (1914- 2002), então diretora do Centro de Orientação Juvenil (COJ), uma clínica pública de orientação psicológica a jovens e crianças, a primeira da América Latina no modelo das child guidance clinics norte-americanas. A criação do COJ esteve a cargo de Helena Antipoff e Emilio Mira y López, dois dos personagens de maior destaque na constituição da Psicologia no Brasil.

    Albuquerque é convidada a realizar um estágio profissional em Psicologia no COJ e logo é efetivada na equipe. Realizava psicodiagnóstico (testes de personalidade, inteligência e aptidões específicas) e a chamada “orientação vital”, nos casos cuja demanda era marcadamente psicológica: casos de desajustamento emocional, familiar, escolar, orientação profissional e que não envolvessem questões psiquiátricas (Degani-Carneiro, Messias & Jacó-Vilela, 2007).

    Por meio de estudos teóricos de técnicas psicoterápicas e principalmente do contato com profissionais estrangeiros, como a estadunidense Reba Campbell, o COJ foi progressivamente se deslocando de um perfil estritamente psicodiagnóstico, que caracterizava a Psicologia brasileira à época, passando a realizar atendimentos psicoterápicos, inicialmente na abordagem rogeriana (Degani-Carneiro, 2010). Além dos atendimentos, o COJ era um dos poucos locais disponíveis para formação prática em orientação psicológica e psicoterapia, recebendo estagiários de diversos lugares do Brasil, tanto profissionais quanto graduandos (após a criação do curso da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1953 – o primeiro do Brasil).

    Tais fatos evidenciam o pioneirismo do COJ na psicologia clínica, ainda na década de 1950, anteriormente à regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil (1962) e em um momento, no qual setores da psiquiatria e as sociedades de psicanálise faziam fortes pressões no sentido de resguardar a psicoterapia como atividade privativa dos médicos (Degani-Carneiro & Jacó-Vilela, 2012). Após a saída de Velloso, Albuquerque dirigiu o COJ de 1968 até sua saída em 1977.

    Albuquerque atuou simultaneamente em outra instituição federal, o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), órgão do Ministério da Educação, através do qual organizou e dirigiu, entre 1955 e 1967, o Serviço de Orientação Psicopedagógica (SOPP), um gabinete de psicologia na Escola Guatemala, no Rio de Janeiro (Albuquerque & Dupret, 2009). Esta era uma escola experimental, fundada por Anísio Teixeira, segundo os moldes da Escola Nova, baseada nos princípios de Dewey e de Claparède e na qual era importante, portanto, a individualização do aluno. Daí decorre a importância da Psicologia nesta escola (Oliveira, Degani-Carneiro & Messias, 2011).

    A atuação de Albuquerque no contexto do SOPP guardava muitas semelhanças com a perspectiva do COJ, com o diferencial da inserção no ambiente escolar. Inicialmente, consistia na aplicação de testes psicológicos nos alunos. Com a constatação da ineficiência dessa aplicação, o SOPP iniciou um trabalho junto às professoras, visando capacitá-las a utilizar os dados dos testes junto aos de sua experiência em sala de aula (e não sobrepondo-os a esta). A experiência do SOPP é considerada inovadora na área da psicologia escolar pela visão crítica que trouxe em relação aos testes e à adoção de um perfil mais aproximado da psicopedagogia. Tanto na clínica quanto na escola, o trabalho de Albuquerque se destaca por serem os primeiros passos na direção de uma atuação psicoterápica pelos psicólogos.

    Albuquerque também foi relevante no processo de constituição dos Conselhos Federal e Regionais de Psicologia no Brasil – órgãos de fiscalização técnica e ética do exercício profissional dos psicólogos. Foi a primeira presidente do Conselho Regional do Rio de Janeiro (1977-1979) e vice-presidente do Conselho Federal (1980-1982). Além disto, foi uma das fundadoras da Associação de Profissionais Psicólogos do Estado do Rio de Janeiro, que depois se transformou no Sindicato dos Psicólogos do Rio de Janeiro (Esch, Lima & Rezende, 2001).

    A trajetória pessoal e profissional de Albuquerque permite observar a relevância da participação feminina na emergência e autonomização da profissão de psicólogo no Brasil, ainda que essa participação nem sempre seja contemplada pela historiografia tradicional.  Embora esta contemple a presença dos homens que foram os catedráticos e/ou fizeram parte das comissões para discussão dos projetos de Lei sobre a regulamentação da profissão, foram sem dúvida as mulheres que, nas décadas de 1940 a 1960, com sua presença majoritária nos diversos cursos de curta duração voltados à formação teórica e técnica em psicologia existentes à época, nos movimentos em prol da regulamentação da profissão e dos cursos de psicologia no Brasil, nas associações recém-criadas, nos recém-fundados Conselhos, como professoras nos novos cursos de graduação.

    Enfim, sem dúvida, foram as mulheres que construíram a nova profissão. Therezinha é um exemplo dessa geração a que devemos nosso respeito.

     

    *Uma versão inicial desta biografia foi publicada em língua inglesa na seção “Heritage” do boletim da Society for The Psychology of Women / American Psychological Association (APA). Disponível em http://www.apadivisions.org/division-35/about/heritage/therezinha-dealbuquerque-biography.aspx

    Fontes:

    Albuquerque, T. L. (2003). Depoimento. In Jacó-Vilela, A. M., Cerezzo, A. C., Rodrigues, H. B. C. (Orgs), Clio-Psyché Paradigmas – Historiografia, psicologia, subjetividades. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.

    Albuquerque, T. L & Dupret, L. (2009) Encontros no Caminhar da Psicologia educacional no Brasil. (2009). Rio de Janeiro: Letra Capital.

    Degani-Carneiro, F. (2010). A infante ciência e seus infantes: o cuidado com a infância e a autonomização da Psicologia no Brasil nas décadas de 1930-1960. Monografia de graduação em Psicologia. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

    Degani-Carneiro, F. & Jacó-Vilela, A. M. (2012). O cuidado com a infância e sua importância para a constituição da Psicologia no Brasil. Revista Interamericana de Psicologia. 46(1), 159-170.

    Degani-Carneiro, F., Jacó-Vilela, A. M., Messias, M. C. N. (2007). Autonomização da Psicologia no Rio de Janeiro: o Centro de Orientação Juvenil (COJ). In Associação Brasileira de Psicologia Social (Org.), Anais de Trabalhos Completos do 14º Encontro Nacional da Associação Brasileira de Psicologia Social. Rio de Janeiro.

    Esch, C. F., Lima, S. C. C., Rezende, M. S. (2001). Albuquerque, Therezinha Lins de. In Campos, R. H. F. (Org.), Dicionário Biográfico da Psicologia no Brasil. Rio de Janeiro/Brasília: Imago, CFP.

    Oliveira, F. M., Degani-Carneiro, F., & Messias, M. C. N. (2011). Serviço de Orientação Psicopedagógica (SOPP). In Jacó-Vilela, A. M. (Org.), Dicionário Histórico de Instituições de Psicologia no Brasil. Rio de Janeiro/Brasília: Imago/CFP.

    Autoria:

    Ana Maria Jacó-Vilela é pesquisadora em história da psicologia no Brasil, coordenando o Núcleo Clio-Psyché, de pesquisas em  História da Psicologia;  bolsista de produtividade do CNPq, cientista do nosso estado da Faperj, Procientista da UERJ. Professora do curso de graduação e do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social da Uerj, que atualmente coordena. Membro da Mesa Diretora da Sociedade Interamericana de Psicologia. Coordenadora de Rede Iberoamericana de Pesquisadores em História da Psicologia.  

    Filipe Degani Carneiro é doutorando em Psicologia Social pelo Programa de Psicologia Social da UERJ.

    Maria Cláudia Novaes Messias  é mestre em Psicologia Social pela UERJ


Yvonne Primerano Mascarenhas (1931 - )

  • Nasceu em 21 de julho de 1931, em Pederneiras, interior do Estado de São Paulo, sendo a primeira das duas filhas do casal Francisco Primerano e Luiza Lopes Primerano. O pai era filho de imigrantes italianos oriundos da Calábria. Quando ela tinha dez anos, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, em função do trabalho do pai, e fixou-se em Copacabana. Nessa cidade, Yvonne cursou o clássico no Colégio Mello e Souza, uma escola particular tradicional. Em 1953, graduou-se em Química pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. No ano seguinte, obteve o título de bacharel em Física pela Universidade do Estado da Guanabara, atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Em 1956, foi contratada como professora assistente pela Escola de Engenharia de São Carlos, na época única unidade da Universidade de São Paulo na cidade.

    Seu interesse pela cristalografia teve início no Rio de Janeiro, ao participar de uma disciplina ministrada pelo professor Elisiário Távora, cujo principal interesse era a Geoquímica e que acabava de retornar de seu doutorado, realizado no Massachusetts Institute of Technology sob a orientação de M. J. Buerger, renomado cristalógrafo e mineralogista americano. O curso evidenciou a forte correlação existente entre a estrutura cristalina e as propriedades dos materiais. Esse interesse consolidou-se durante um estágio de pesquisa no laboratório de cristalografia da Universidade de Pittsburgh, entre 1959 e 1960, realizado com apoio da Comissão Fulbright. Voltando ao Brasil, defendeu em 1963, na Escola de Engenharia de São Carlos, a tese de doutorado intitulada “Determinação de estruturas cristalinas por difração de raios X: estudo do formato manganoso bi-hidratado”, sob a orientação do Dr. Theodureto de Arruda Souto. Após se doutorar, foi pesquisadora na Universidade de Princeton, em 1966, novamente com apoio da Comissão Fulbright, e professora visitante no Instituto Politécnico Nacional do México, em 1967.

    Já na década de 60, seus trabalhos em cristalografia, pioneiros no Brasil, originaram o grupo de cristalografia do Instituto de Física e Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo. O contato com cristalógrafos do exterior, durante seus vários estágios como professora visitante, incentivou-a a fundar, junto com outros pesquisadores, a Sociedade Brasileira de Cristalografia, em 29 de outubro de 1971. Foi presidente desta entidade em diversas ocasiões, mesmo depois de sua aposentadoria.

    Em 1971, obteve o título de livre-docente pela Escola de Engenharia de São Carlos. Atuou ainda como professora visitante na Harvard Medical School, de 1972 a 1973, e no Birkbeck College da Universidade de Londres, entre 1979 e 1980. Foi professora titular do Instituto de Física e Química de São Carlos a partir de 1981. Quando, em 1994, esta unidade foi dividida nos Institutos de Física e de Química, a professora Yvonne permaneceu no primeiro, até sua aposentadoria compulsória em 2001. No entanto, nunca se desligou das atividades de pesquisa e ensino.

    Membro titular da Academia Brasileira de Ciências desde 2001, foi agraciada com dezenas de prêmios e títulos, entre os quais se destaca o da Ordem Nacional do Mérito Científico, na classe Grã-Cruz, concedido em 1998 pelo então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Mais recentemente, em 2013, foi homenageada com o título de pesquisadora emérita do CNPq.

    Em sua trajetória acadêmica, orientou inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado, tendo publicado mais de 150 artigos, em revistas indexadas, sobre cristalografia.

    Além da paixão pela cristalografia, a professora Yvonne dedica-se também à difusão científica. Coordena desde 2001um grupo de trabalho sobre o tema no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, além de uma agência de difusão cientifica no portal Ciência Web. É também engajada em artes, e principalmente em música. Nos anos 70, deu apoio ao curso de iniciação musical organizado para os estudantes da Escola de Engenharia de São Carlos, na Fazenda Monte Alegre, em Descalvado. No início dos anos 90, coordenou o movimento de música erudita da Fundação Theodoreto Souto. Foi casada com o professor e pesquisador Sergio Mascarenhas, com quem teve quatro filhos, Sergio Roberto, Yvone Maria, Helena e Paulo Roberto.

    Yvonne continua atuante, como colaboradora e professora aposentada em exercício, no Instituto de Física de São Carlos. Na homenagem que recebeu do Instituto por ocasião de seus 80 anos, foi chamada de “o cristal de Pederneiras”.

    Blog Além das Facetas: http://ccmc.ifsc.usp.br/alemdasfacetas/

    Entrevistas por telefone com a professora Yvonne em dezembro de 2013.

    Autoria: Ana Candida Martins Rodrigues.

    Professora do Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos.