Pioneiras da Ciência no Brasil

Escrever a história das mulheres brasileiras cientistas é reconhecer que a participação feminina foi e é fundamental para o avanço do conhecimento. Estas pioneiras abriram as portas: do saber e do poder. Do saber, porque cada uma delas teve um importante papel para sua área de conhecimento. Do poder, porque provaram que as mulheres não são só aptas para a ciência quanto esta não pode prescindir de sua contribuição.

Esta é uma proposta inicial de visibilizar a história das mulheres pesquisadoras. O CNPq agradece às pesquisadoras Hildete Pereira de Melo e Ligia M. C. S. Rodrigues por terem disponibilizado os resultados de suas pesquisas sobre as pioneiras nas ciências. Este trabalho foi publicado primeiramente pela SBPC, em 2006, com o título: Pioneiras da Ciência no Brasil e poderá ser acessado na íntegra aqui

 

EULÁLIA MARIA LAHMEYER LOBO (1924 - 2011)

  • Eulália Maria Lahmeyer nasceu no Rio de Janeiro, no dia 17 de julho de 1924, filha de Antônio Dias Leite e Georgette Furquim Lahmeyer Leite. Pelo lado materno descende de família tradicional cafeeira, os Teixeira Leite de Vassouras, e pelo paterno de imigrantes portugueses. Foi alfabetizada e iniciada nos estudos em casa, pela inteligente professora  Nair Lopes. Fez o curso ginasial no Colégio Jacobina de onde, terminado o quinto ano, ingressou direto no curso de História e Geografia da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Era 1941, e pouco antes, em 1939, a Universidade do Distrito Federal havia sido incorporada à Universidade do Brasil e criada a Faculdade Nacional de Filosofia. Nessa fase de transição os candidatos foram liberados de realizar os dois anos de curso complementar  após o ginásio e puderam fazer exame direto para Universidade. Casou-se com Bruno Lobo, com quem teve dois filhos.

    Bacharel e licenciada em História, Eulália completou sua formação nos Estados Unidos nas Universidades de Columbia e North Carolina. Era aluna brilhante e ao voltar foi na Universidade do Brasil que iniciou sua carreira do magistério, paralelamente à de professora de História do Colégio Pedro II.

    Mediante defesa da tese de doutoramento "Administração colonial luso-espanhola nas Américas", orientada pelo professor Silvio Júlio, obteve o grau de doutor. Esta foi a primeira tese de doutorado em História defendida por uma mulher no Brasil. No concurso de títulos e provas com a tese "Caminho de Chiquitos às Missões Guaranis", obteve a docência livre. Após alguns anos como auxiliar de ensino, professora regente e professora catedrática interina, conquistou, em concurso público, o cargo de Professora Titular de História das Américas, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, em 1967, com a importante tese "Aspectos da atuação dos consulados de Sevilha, Cádiz e da América Hispânica na evolução econômica do século XVIII ".

    A carreira de Eulália como professora e pesquisadora é de grande sucesso. Foi professora visitante em universidades estrangeiras, nos Estados Unidos e na França. Em 1968 foi atingida pelo AI-5 e aposentada compulsoriamente da universidade e em 1969 foi presa por uma semana, durante a visita de Rockefeller ao Brasil, numa "operação gaiola" para evitar manifestações. "A narrativa de Eulália sobre sua prisão é deliciosa. Chegaram à sua casa, de madrugada, três pessoas armadas. Vinham prendê-la, mas não sabiam quem era ela. E ela lhes disse: "Não digo quem sou enquanto vocês não me disserem quem são! Vocês estão uniformizados mas podem ter assaltado um quartel e roubado as fardas... Quero saber quem são vocês!". Eulália ligou para seu cunhado, que era almirante, na época cogitado para ministro, e os homens acabaram se identificando: eram da 8ª Artilharia da Costa no Leblon. Eulália os acompanhou. Foi levada ao gabinete do comandante, que se mostrava muito constrangido. Eulália lhe disse: "O Exército que combateu a caça aos escravos, que proclamou a República, vem agora prender os cidadãos que não estão armados... não estão alterando a ordem pública. O Exército, que tem tantas tradições gloriosas, está reduzido a isso?".O comandante, desesperado, dizia: "Não somos policiais". E a ordem se inverteu: comandante se defendendo e Eulália atacando. Mesmo assim, ficou presa, apesar de não haver acusação formal. Diariamente ela perguntava ao comandante: "Qual é a acusação contra mim?". Ele não tinha o que responder e dizia: "Você teve muita sorte, porque se morasse mais perto do Humaitá teria tido um destino terrível, pois teria ido para uma unidade muito pior". Foi na prisão que, vencendo seus medos, Eulália começou a escrever sua história sobre a América Latina. Depois de solta, permaneceu por doze anos indo aos Estados Unidos para lecionar. Ia e voltava, continuando suas pesquisas no Brasil. Mais uma vez foi pioneira! Conseguiu um auxílio da Ford Foudation, que até então só concedia verba de pesquisas com filiação institucional." (relato de Ismênia Lima Martins em homenagem à Professora Eulália).

    Depois que foi expulsa do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, Eulália conseguiu uma bolsa da Ford Foundation e do Social Science Research Council para fazer uma pesquisa sobre o Rio de Janeiro e foi trabalhar com a pesquisadora Maria Bárbara Levy no IBMEC. No final da década de 1970, Eulália ingressou na UFF, para lecionar na Pós-Graduação em História. Não tinha sido ainda anistiada. Reintegrada à UFRJ, após a Anistia, permaneceu na UFF, onde coordenou, o primeiro Projeto Finep na área de História.

    Entre as características de Eulália estão uma enorme paciência com os estudantes e jovens professores e uma grande alegria de viver. São famosas suas  esticadas depois dos congressos, e sua competência para degustar os bons vinhos, sua agilidade para dançar os ritmos nordestinos no Forró Forrado, o que deixou maravilhado Eric Hobsbawm que, naquela oportunidade, a fotografou inúmeras vezes... E a sua alegria cantando a Internacional em um restaurante em Laranjeiras (Lima, 2004).

    Professora Emérita da UFRJ e da UFF, sua trajetória é emblemática para a comunidade brasileira de historiadores. Resultantes de suas pesquisas publicou, mais de cem títulos sob a forma de livros, artigos e monografias em revistas especializadas no Brasil e na Argentina, Peru, Costa Rica, Estados Unidos, Portugal, França e Alemanha.

    Faleceu no Rio de Janeiro, em 01 de junho de 2011.

    Teses e Livros: Administração colonial luso-espanhola nas Américas", Tese de Doutoramento; Caminho de Chiquitos às Missões Guaranis, Tese de Livre Docência; Aspectos da atuação dos consulados de Sevilha, Cádiz e da América Hispânica na evolução econômica do século XVIII, Tese para o Concurso de Cátedra na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais; História do Rio de Janeiro (do capital comercial ao capital industrial e  financeiro), Rio de Janeiro, IBMEC, 1978; América Latina Contemporânea; A Imigração Portuguesa; Cartas de Antônio Dias Leite (1870-1952) ¿um olhar sobre uma época de transformações, Rio de Janeiro, Editora Lidador, 2005. 

    Fontes: Entrevista com Eulália Maria Lahmeyer Lobo, em Estudos Históricos, ¿ América, Rio de Janeiro, Associação de Pesquisa e Documentação Histórica (APDOC), vol.5, nº 9, 1992. Lima, Ismênia Martins de, Conferência em Homenagem a Eulália Lobo pronunciada no dia 15 de abril de 2004 no campus da UERJ no lançamento do número 10 da Revista do Rio de Janeiro, site www.ipp-uerj.net/forumrio/conferencia em homenagem a Eulália Lobo, acessado em 13 de janeiro de 2006. Revista de História (Fundação Biblioteca Nacional), site www.revistahistória.com.br, em 02 de março de 2013. Elaborado por Hildete Pereira de Melo e Ligia M.C.S.Rodrigues.


GRAZIELA MACIEL BARROSO (1912-2003)

  • Nasceu em 11 de abril de 1912, em Corumbá (Mato Grosso do Sul). Como a maior parte das moças de sua época, Graziela Maciel Barroso foi educada para ser dona de casa. Casou-se aos 16 anos com o agrônomo Liberato Joaquim Barroso, e morou em vários lugares do país por causa de seu trabalho. Aos 30 anos, no entanto, com os filhos já crescidos, Liberato perguntou à esposa se ela gostaria de voltar a estudar, e passou a lhe ensinar botânica. "Meu marido foi meu grande mestre", diz. Graziela foi então trabalhar como estagiária no Jardim Botânico no Rio de Janeiro. Foi a primeira mulher a fazer o concurso para ser naturalista do Jardim Botânico, tirou o segundo lugar e a partir de 1946  trabalhou com seu marido em sistemática botânica. Durante muitos anos, Graziela trabalhou sem ter curso superior. Apesar disso, orientava os novos estagiários e mesmo mestrandos e doutorandos. Aos 47 anos, decidiu estudar e ingressou no curso de biologia da Universidade do Estado da Guanabara. Finalmente, em 1973, aos 60 anos defendeu sua  tese de doutorado ¿Compositae - subtribo Baccharidinae Hoffmann - estudo das espécies ocorrentes no Brasil¿.

    Dona Graziela é conhecida como a ¿primeira grande dama¿ da botânica brasileira, tendo sido professora de quase todos os botânicos brasileiros, nos seus mais de 50 anos de atividade didática. Sua obra mais conhecida é provavelmente  ¿Sistemática de Angiospermas do Brasil,¿ em 3 volumes, dos quais dois foram publicados depois de sua aposentadoria compulsória em 1982. Seu quarto livro, ¿Frutos e Sementes,¿ foi publicado em 1999. Em sua homenagem, mais de 25 espécies vegetais identificadas nos últimos anos foram batizadas com seu nome, como Dorstenia grazielae (caiapiá-da-graziela) da família das moraceas (a da figueira), Diatenopteryx grazielae (maria-preta). Viúva em 1949, continuou o trabalho, orientando e ensinando. Tornou-se a maior catalogadora de plantas do Brasil. Seu livro ¿Sistemática de angiospermas do Brasil¿  é uma referência internacional sobre o assunto, sendo adotado em todas as universidades brasileiras. Eleita para a Academia Brasileira de Ciência, sua posse estava marcada para o dia 4 de junho de 2003, mas faleceu no dia 5 de maio daquele ano.   

    Fonte: Cientistas do Brasil - depoimentos, Sociedade Brasileira para o Progresso Brasileiro, 1998. Site C&TJovem.mct.gov.br acessado no dia 24 de setembro de 2005; sites http://ctjovem.mct.gov.br/index.php?action=/content/view&cod_objeto=12887 e http://cienciahoje.uol.com.br/controlPanel/materia/view/1238. Elaborado por Hildete Pereira de Melo e Ligia M.C.S.Rodrigues.


JOHANNA DÖBEREINER (1924 - 2000)

  • Nasceu em 28 de novembro de 1924 em Aussig (nos Sudetos) na então Tchecoslováquia, onde a maioria da população era de origem alemã, filha primogênita de Paul e Margarethe Kubelka. Seu pai era químico e foi livre docente da Universidade de Praga. Johanna fez a escola secundária numa escola alemã de Praga e viveu nessa cidade até o final da segunda guerra mundial. Seu pai foi preso durante a guerra (1939/45), porque ajudava os judeus a fugirem da perseguição nazista. Terminada a guerra em 1945, a família Kubelka viveu tempos difíceis devido a sua origem alemã. Quando em 1939 Hitler invadiu a Tchecoslováquia, concedeu a cidadania alemã à população dos Sudetos e isso desencadeou depois da libertação uma perseguição por parte dos tchecos àquela população. O pai de Johanna conseguir deixar Praga indo para a Alemanha, mas sua mãe foi presa em 1945 e faleceu nesse mesmo ano num campo de concentração tcheco. Johanna e seus avós paternos foram expulsos pelos tchecos para a Alemanha, chegando nesse país em julho de 1945. Seus avós faleceram nesse mesmo ano e Johannna viveu algum tempo como trabalhadora rural, até que seu pai a encontrasse. Foi então seu primeiro contato com a agronomia, pois seu pai conseguiu para ele um trabalho numa fazenda próximo de Munique, onde ela selecionava trigo para melhorar a produção. 

    Em 1946, seu pai e o irmão Werner emigraram da Alemanha para o Brasil. O Dr. Kubelka foi trabalhar no Departamento Nacional de Produção Mineral e foi um dos primeiros bolsistas do recém criado Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). Ele desenvolveu pesquisas em tecnologias de enxofre para o carvão brasileiro e em potássio das salinas de Cabo Frio (RJ), tendo falecido em 1954.

    Johanna havia permanecido na Alemanha porque, por influência do pai, em 1946 havia ingressado no curso de Agronomia na Universidade de Munique, onde se graduou em 1950. No mesmo ano casou-se com seu colega Jurgen Döbereiner e veio em seguida para o Brasil. Em 1956, se naturalizou brasileira.  Teve três filhos, Maria Luisa (Marlis), Christian e Lorenz, e dez netos.

    Em março de 1951, Johanna foi contratada para assistente de pesquisa do Dr. Álvaro Barcellos Fagundes, diretor do Serviço Nacional de Pesquisas Agronômicas do Ministério da Agricultura (SNPA), e passou a trabalhar no Laboratório de Microbiologia de Solos. O SNPA posteriormente se transformaria na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), onde ela trabalhou até o final de sua vida.

    Nos anos 1970, Johanna realizou seu trabalho mais importante ao descobrir a ocorrência de uma associação entre bactérias do gênero Spirillum e as gramíneas. Essa descoberta, feita a partir da observação de que no Brasil, ao contrário do que acontecia nos países europeus de clima frio, um determinando tipo de grama crescia sem a necessidade de adubos químicos, teve um enorme impacto no meio científico e tecnológico; pela aplicação em solos tropicais, pois a presença de uma bactéria na grama fixava o nitrogênio na planta, substituindo o uso de fertilizantes químicos. Em 1964, chamada a participar da Comissão Nacional da Soja, cujo cultivo estava iniciando-se no Brasil, a Doutora Döbereiner convenceu a Comissão das vantagens da aplicação de bactérias nas raízes da planta e a escolha desse método nas plantações de soja foi decisiva para a fabulosa expansão da mesma em nosso país. Esse método reduziu os custos da soja brasileira, representando uma economia anual de 1 bilhão de dólares em fertilizantes hidrogenados para o país, aumentando o potencial agrícola do país. Da mesma maneira, Johanna aplicou esse método no cultivo da cana de açúcar e os bons resultados obtidos permitiram a implementação do programa PROALCOOL. Além disso, esse trabalho de Johanna levou o Brasil a melhorar a produção de diversas leguminosas, a um custo mais baixo e com menos poluição do meio ambiente, e valeu a ela a indicação ao prêmio Nobel da Paz em 1997. Também tornou-se a uma das cientistas brasileiras mais citada pela comunidade científica mundial e a mais citada entre as mulheres.

    Ao longo de sua carreira, Johanna publicou quase 500 trabalhos e orientou dezenas de teses de mestrado e doutorado.

    Em 1977, Johanna foi eleita membro efetivo da Academia Brasileira de Ciências (ABC), tendo sido eleita vice-presidente dessa instituição em 1995. Foi a primeira mulher a integrar os quadros de direção da ABC. Johanna recebeu inúmeros prêmios nacionais e internacionais, como reconhecimento ao seu trabalho científico e seguramente teria recebido o Prêmio Nobel, para o qual foi indicada pela ABC, caso a sua pesquisa tivesse sido feita para as plantações norte-americanas. Trabalhando até os últimos dias de sua vida, faleceu em 5 de outubro de 2000. Em 12 de novembro de 2002 seus colaboradores e familiares criaram a Sociedade de Pesquisa Johanna Döbereiner para dar continuidade a suas pesquisas. 

    Alguns Prêmios e Distinções: Doutor Honoris Causa da Universidade da Flórida (1975); Prêmio Frederico Menezes Veiga da EMBRAPA (1976); Grau de Oficial da Ordem de Rio Branco, Ministério das Relações Exteriores do Brasil (1976); Grau de Comendador da Ordem do Rio Branco do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (1985); Grau de Grande Oficial da Ordem do Rio Branco Ministério das Relações Exteriores (1990); Membro da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano pelo Papa Paulo VI (1978); Membro Fundador do Third World Academy of Sciences (1981); Doutor Honoris Causa da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1982); Prêmio Ciência da UNESCO (1989); Ordem do Mérito de Primeira Classe da República Federal da Alemanha (1989); Prêmio México de Ciência e Tecnologia (1992).

    Fontes: CD-ROM ¿Johanna Döbereiner: 50 anos dedicados à Pesquisa em Microbiologia do Solo¿ Embrapa Agrobiologia, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, FAPERJ, 2003; sites http://premioclaudia.abril.com.br/1996/dobereiner.html e http://cienciahoje.uol.com.br/controlPanel/materia/view/1670

    Elaborado por Hildete Pereira de Melo e Ligia M.C.S.Rodrigues.


RUTH SONNTAG NUSSENZWEIG (1928 - )

  • Ruth Sonntag Nussenzweig nasceu em 20 de Junho de 1928, em Viena, Áustria, filha de Eugenia e Baruch Sonntag, e emigrou para o Brasil ainda menina. Entrou na Escola de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em 1948, onde conheceu Vitor Nussenzweig, com quem se casou e  graduou-se em 1953. Ruth e Victor tiveram três filhos (Michel, André e Sonia).

    Sua formação científica iniciou-se durante o estudo universitário, no Departamento de Parasitologia da USP, então chefiado pelo Dr. Samuel Pessoa. Trabalhou vários anos no problema da transmissão da doença de Chagas pela transfusão sanguínea e sua prevenção. Demonstrou que a Doença de Chagas pode ser adquirida por transfusão sangüínea e que a adição de violeta de genciana ao sangue infectado previne a transmissão da doença. Em 1958, mudou-se para a França para realizar seu pós-doutoramento, em bioquímica, no Collège de France. Em 1960 retornou ao Brasil onde ficaria por pouco tempo. Com o objetivo de aprender e avançar ainda mais se mudou para os Estados Unidos para trabalhar com o Dr. Zoltan Ovary na New York University (NYU) enquanto Vitor, seu marido, foi trabalhar com o Dr. Baruj Benaceraf (que ganharia o Prêmio Nobel em Medicina em 1980). Em 1964, decidira voltar ao Brasil, então sob o regime militar. Como o clima político não era favorável à pesquisa, retornou à New York University logo após a conclusão de seu doutorado pela USP.

    O brilhante desempenho de Ruth lhe conseguiu a vaga de imunologista para a cadeira de parasitologia. Na época, a biologia da malária estava sendo estudada por outros professores do Departamento e Ruth iniciaria então estudos a respeito da resposta imune contra a doença. Foi inicialmente indicada como Professora Assistente (1965), mas rapidamente virou Professora Associada (1968) e Professora Plena (1972). Durante este período, Ruth fez uma grande descoberta, demonstrando em animais de laboratório que era possível obter proteção contra o parasita causador da malária por meio da irradiação do micróbio. Esta descoberta foi publicada em 1967, na revista ¿Nature¿, o mesmo periódico onde anos antes havia sido publicada a estrutura do DNA. Esta descoberta gerou imenso entusiasmo e serviu de base para as pesquisas que visavam desenvolver uma vacina contra a malária. Em 1976 foi indicada Professora Titular e Chefe da Divisão de Parasitologia do Departamento de Microbiologia e, em 1984, tornou-se Professora Titular do Departamento de Parasitologia Médica e Molecular da NYU. Até hoje, em nenhuma outra faculdade de medicina dos Estados Unidos há a cadeira de Doenças Parasitárias.

    As pesquisas desenvolvidas por Ruth no campo da Parasitologia e de Doenças Tropicais, com ênfase em malária, lhe trouxeram reconhecimento internacional. Durante sua carreira, integrou diversos grupos de trabalho e missões e prestou consultoria à Organização Mundial de Saúde, entre outras, em atividades voltadas para o controle e a erradicação de doenças tropicais, como a Doença de Chagas e a malária. Ruth tem mais de 200 trabalhos publicados nas revistas mais conceituadas nacionais e internacionais e foi honrada com inúmeros prêmios e condecorações, nacionais e internacionais. Em 1998, foi condecorada pelo Presidente da República com a Ordem Nacional do Mérito Científico classe Grã-Cruz. Recentemente, Ruth estabeleceu uma colaboração com uma equipe da Fiocruz, no Brasil, para testar uma vacina contra a malária utilizando o vírus da febre amarela como vetor. Os resultados têm se mostrado bastante promissores. Ruth e seu marido Vitor Nussenzweig, são sem dúvida os dois mais importantes pesquisadores brasileiros sobre malária, e estão entre os principais do mundo. Residem na cidade de Nova York (EUA).

     

    Fontes: Sites pesquisados: www.abc.org acessado em 26.01.06; www.revistapesquisa.fapesp.br acessado em 26.01.06; www.jornaldaciencia.org.br acessado em 30.01.06; Ordem Nacional do Mérito Científico, Anuário 2000/2001, Volume II, p. 853. Elaborado por Camila Indiani de Oliveira (CPqGM ¿ FIOCRUZ).